Zé Sérgio buscando a volta

* Publicado na Gazeta Esportiva de 10/05/1981

Zé SergioVendo um cão puxando majestosamente a trela, conduzindo o seu dono sem hesitação pelo parque magnífico existente no Campo do Banco da Inglaterra, Zé Sérgio parece ter ficado mais leve, mais feliz, menos tenso, com desejo de falar. Antes, olhou para o alto e viu quase parado um gigantesco Zepelim sobrevoando o local de treinamento da Seleção Brasileira. Sorriu ao ver alguns automóveis luxuosos, predominando a cor “preto-status”.

Zé Sérgio estava demonstrando uma aparente tranqüilidade, mas isso não significava paz. Antes de explodirem, as bombas, são inofensivas. O ponteiro esquerdo do São Paulo precisava ser ouvido, falar, mostrar quando voltaria a condição de intocável dentro do time de Telê Santana. Há alguns meses o futebol de Zé Sérgio não é o mesmo. Não é tão colorido, alegre, eficiente, vibrante. Ele está num processo de recuperação de uma posição que foi só dele, sem necessitar dividi-la com Éder.

O fato de ter treinado na equipe reserva parece estar provocando uma reação importante em Zé Sérgio. Deixa claro que não aceitará passivamente a perda da posição;

“Entendo que todo jogador deve respeitar a boa fase do outro. Sou de opinião de que ninguém pode desmerecer um companheiro. Mas não admito perder sem lutar honestamente. Vinha atuando como titular do selecionado e entrei numa fase não muito boa. Isso é natural na vida de qualquer jogador de futebol e aceito ter perdido a posição para o Éder, mas provisoriamente. Futebol é assim. No time do técnico Telê Santana joga quem na visão dele estiver melhor e o outro tem que concordar. Um critério que merece respeito, entretanto é uma questão de tempo. Sinto que o meu futebol, que os bons momentos estão voltando. Fisicamente estou muito bem, fiquei triste com a perda do título brasileiro, mas psicologicamente todos os jogadores já estão recuperados. Este contato com o futebol da Europa é importante, estava faltando para a maioria dos meus companheiros e tudo gira em torno do selecionado. Quero recuperar a posição de ponteiro esquerdo titular. Só depende do meu esforço. Tenho que acostumar-me coma rígida marcação adversária e também com o sistema empregado pelos laterais. É só uma questão de total adaptação, algo perfeitamente viável”.

Zé Sérgio não diz, entretanto, são muitos os comentários de que investidas desordenadas dos laterais prejudicam a ação dos ponteiros.

Além disso, principalmente no futebol brasileiro, a violência empregada nos atacantes impede a evolução da habilidade e esse último ponto Zé Sérgio ratifica prontamente:

“Nos últimos jogos do São Paulo, praticamente joguei deitado. Os marcadores foram muito violentos, principalmente o Rodrigues Neto do Internacional. Não tenho nada contra ele, mas ele deu muitos pontapés e infelizmente a ação dos árbitros não é tão rigorosa. Alguém deveria orientá-los para proteger jogadores hábeis. Fica difícil a luta de alguém que pretende jogar futebol com alguém que quer agredir”.

Zé Sérgio ficou apreciando, por um bom tempo, uma partida entre equipes amadoras realizada no Campo do Banco da Inglaterra e apreciou o condicionamento físico dos participantes:

“É bonito vê-los jogar, mas ainda prefiro deixar a bola correr muito mais que o jogador. É claro que a Seleção Brasileira não pode ser lenta, mas se conseguir de vez aliar a habilidade a uma razoável velocidade, será uma força indiscutível na Copa do Mundo. No Mundialito o Brasil enfrentou equipes velozes e saiu-se bem, sem fugir das suas verdadeiras características”.

“Tenho uma opinião muito simples sobre fases de um jogador de futebol. Ninguém aprende a jogar de um instante para outro e ninguém esquece de um momento para outro. Acho que sou um bom jogador de futebol e não deixei de ser hábil ou deixei de conhecer o que é uma bola. Existem momentos em qualquer profissão que provocam uma queda no rendimento do profissional e no futebol também é assim. Acho que não deve ocorrer uma crucificação”.

“De qualquer maneira este giro pela Europa definirá muita coisa. Alguns ficarão em suas posições, outros ganharão lugares, uns serão aplaudidos, vários serão criticados. Enfrentar escolas da Europa, que eu desconhecia, sempre provoca reações , comportamentos, resultados diferentes”.

“Para uma Seleção que pretende ganhar a Copa do Mundo de 1982, o Brasil na opinião dos jogadores, deveria ter mais contato internacional. Parece que a CBF está providenciando isso e ainda não é tarde para este trabalho ser executado”.

“Sou de opinião que muito pouco o futebolista sul-americano pode absorver dos europeus. Entretanto nunca é demais um processo de análises. É bom ver os estilos, como estão atualmente os nossos adversários de amanhã. De minha parte, quero dizer que volto logo ao time principal”.

Mundialito elevou o prestígio

Depois da participação brasileira em Montevidéu, durante o Mundialito, o prestígio do futebol brasileiro subiu muito aqui na Inglaterra.

O futebolista brasileiro passou a ser mais respeitado. Não é segredo para ninguém que antes da Copa de Ouro, a imagem do Brasil no futebol estava muito arranhada, por ausências de contato internacional e vitórias sem expressão.

O hotel Royal Garden, local da concentração da Seleção Brasileira, fica ao lado do Read Park, região das mais caras de Londres. Apesar do excelente serviço de Metrô – que cruza toda a cidade de Londres – o tráfego diante da concentração brasileira é muito intenso. Não há entretanto poluição sonora.

Como treinador brasileiro, o técnico Telê Santana dirigiu o selecionado em quatro partidas contra europeus: perdeu para a União Soviética, no Rio de Janeiro; empatou com a Polônia, em São Paulo; venceu a Suíça, em Cuiabá; derrotou a Alemanha Ocidental, no Uruguai. A Seleção Brasileira dirigida por Telê Santana enfrentou seleções da Europa, mas em ambiente sul-americano. Críticos ingleses dizem que trabalho da Seleção Brasileira está certo, pois além de conhecer de perto as arbitragens da Europa, disputará jogos em território europeu. A Seleção Brasileira teve a sua chegada retardada em duas horas.

O vôo da Varig ficou retido em Lisboa devido a uma “operação tartaruga” – algo que está acontecendo em toda a Europa.

Lotação esgotada em Wembley

Está sendo destacada pela imprensa inglesa a presença do selecionado brasileiro, em Londres. Zico, Reinaldo e Oscar são os mais citados. Nos últimos dias tem chovido em Londres e no final da tarde a temperatura fica em torno dos 10 graus. A partida entre a Seleção Brasileira e a Seleção Inglesa está marcada para a próxima terça-feira, com horário previsto para às 15 horas (Brasília), 19 horas, Londres.

Cem mil ingressos foram colocados à venda há cinco meses e todos já foram adquiridos. Aliás, os ingressos foram vendidos em apenas 10 dias de venda

Os preços

O ingresso mais caro custa em torno de trinta dólares e o mais barato cerca de dez dólares. A seleção inglesa acena com o fato de nunca ter perdido em Wembley para um selecionado sul-americano. O técnico Greenwood dirige a seleção inglesa desde 1978 e não está agradando à maioria. Torcida e imprensa têm exigido muito do time inglês, principalmente depois das ausências nas copas de 74 e 78. A seleção da Inglaterra venceu a Noruega, pelas eliminatórias, por quatro a zero. Perdeu para a Romênia em Bucares por dois a um. Perdeu para a Espanha, uma partida amistosa, por dois a zero.

A vitória em 79, diante da Argentina, por três a um, tem servido como bom argumento para que Greenwood permaneça no posto.

Keegan, ainda é dúvida

O jogador vem sendo atormentado por inúmeras contusões e não tem presença garantida contra o Brasil. Com 30 anos de idade e com 55 jogos pela seleção da Inglaterra, Keegan é considerado um jogador que pode derrotar o futebol brasileiro.

Hoje a Inglaterra está falando de futebol, esquecendo até os graves problemas que estão ocorrendo na Irlanda. Ontem foi decidida a centésima edição do “Fa Challenge Cup”, o mais cobiçado troféu do Reino. Todos os ingressos foram vendidos e estavam em ação o Totenham e o Manchester City. O Totenham de Ardiles e Vilas, era o favorito. A televisão mostrou a decisão para todo o país. A tradição determina que em todos os segundos sábados de maio, todos os anos, ocorra esta decisão e isso vem acontecendo através dos anos.

Havelange ausente

O presidente da FIFA, João Havelange, não assistirá a decisão da Taça da Inglaterra, nem a partida entre brasileiros e ingleses. Havelange está seguindo para Moscou onde presenciará a decisão do campeonato soviético.

Oscar já conhece

Oscar esteve com a Seleção Brasileira em Londres, em 1978, mas não jogou por estar contundido:

“É emocionante estar em Londres pela segunda vez e agora é para ganhar mesmo. Sei que os ingleses são quase imbatíveis quando jogam em Wembley. Nunca perderam aqui para sul-americanos, mas agora a situação será diferente. De qualquer maneira entendo que o jogo mais difícil será entre Brasil e Alemanha, principalmente pela goleada imposta pelo Brasil sobre os alemães, no Mundialito”.

“Estamos nos aproximando da Copa do Mundo, e as partidas entre o selecionado brasileiro e escolas da Europa só podem construir uma experiência que há muito todos nós buscamos”.

“São momentos decisivos, apesar do caráter amistoso dos jogos.

A confiança de Júnior

Júnior nunca esteve em Londres e apesar da ausência da experiência em contatos internacionais, o lateral esquerdo da Seleção Brasileira entende que prevalecerá mais uma vez o futebol brasileiro:

“Ficou provado no Mundialito que o Brasil é uma força que merece respeito. Quando poucos acreditavam, o futebol brasileiro conseguiu o vice-campeonato no Mundialito”.

“Por muito pouco não chegou ao título. A filosofia está certa, a direção é a mesma, e na medida em que a Copa se aproxima, o trabalho vai aflorando. O Brasil vai ganhar dos seus próximos adversários”.

Alegria de “Calouros”

Próximo da portaria do Royal Garden Hotel, os novatos Paulo Sérgio e Vitor conversavam. Demonstravam sintomas de cansaço, principalmente pelo fato do avião ter ficado retido por mais de duas horas no Aeroporto Internacional de Lisboa.

Para os dois este giro pela Europa é um instante de valorização profissional sobre todo os aspectos:

“Uma viagem à Europa é sempre proveitosa. A gente sempre absorve alguma coisa e também verifica que tem muita coisa boa. Enfrentaremos outros estilos e esses confrontos são ótimos” – disse Paulo Sérgio.

“Só pelo fato de ter sido convocado já estava feliz. Com esta viagem para Inglaterra, França e Alemanha, buscando reforçar ainda a imagem do futebol brasileiro, a responsabilidade aumentou mais, entretanto é tudo muito bom”.

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