Serginho: “Inter paga 50 milhões para levar meu futebol”

*Publicado na Gazeta Esportiva 18/08/1980

1 – No Maranhão começou a animosidade

2 – Telê não o convocou. Ficou triste

3 – Ele e Carlos Alberto: distantes

Tudo começou quando Serginho perdeu uma penalidade.

O São Paulo estava enfrentando o Maranhão, pelo Campeonato Nacional e um pênalti foi marcado. Serginho pediu ao cobrador oficial do time – Ailton Lira – que o deixasse bater a infração. Foi atendido.

Serginho chutou forte, a bola bateu na trave, voltou para Serginho que marcou o gol, mas o arbitro, acertadamente, anulou o lance.

Quando o primeiro tempo da partida terminou, Serginho ficou concedendo muitas entrevistas e ao chegar ao vestiário encontrou o técnico Carlos Alberto Silva criticando o fato de Ailton Lira ter permitido que o centroavante cobrasse a penalidade.

Serginho, irritado, assumiu a responsabilidade e a discussão aconteceu no vestiário entre o técnico e o jogador. Por muito pouco o contato físico não aconteceu.

Daquele dia em diante, o relacionamento entre Carlos Alberto Silva e Serginho nunca mais foi o mesmo. Apenas conversas profissionais e, raramente, um se interessava pelo problema do outro. Mas o respeito existia por parte dos dois.

Veladamente foram muitos os atritos entre o treinador e o goleador. Profissionalmente, ambos interessam ao São Paulo.

Serginho foi substituído na partida amistosa São Paulo e Palmeiras. Carlos Alberto Silva não escondeu o motivo: “Fiquei com receio que ele fosse expulso e não queria perde-lo para a abertura do segundo turno. Ele estava irritado dentro de campo e achei melhor prevenir…”.

O São Paulo começou muito bem, vencendo o Corinthians, na abertura do returno, e mais uma vez Serginho foi substituído, “por motivos táticos” – segundo o técnico – e Assis entrou em seu lugar.

Telê Santana assistiu a partida amistosa – São Paulo e Palmeiras – e pelo ato indisciplinar de Serginho, resolveu não convocá-lo. Mesmo depois da contundente goleada imposta ao Corinthians, a segunda-feira – dia 11 – foi triste para Serginho. A punição fria determinada pelo técnico da Seleção do Brasil feriu o atacante.

Outro jogo do São Paulo, desta vez contra o XV de Jaú, no Morumbi e mais uma vez Serginho foi substituído por Assis: “Trocou tapas com o zagueiro e tive de mudar para não perde-lo para o próximo jogo. Não pretendia vê-lo expulso. (Carlos Alberto Silva)”.

O grandalhão Serginho, 25 anos de idade, considerado como um dos melhores e mais precisos goleadores do futebol brasileiro, não gostou.

Saiu correndo do gramado, xingando, nervoso, não dando nenhuma entrevista, preferindo responder aos que perguntaram os motivos da substituição: “Sei lá…perguntem ao homem…”.

Lá foi Serginho, andando rapidamente pelo túnel, sozinho, dando socos nas paredes de concreto. Com as meias abaixadas, camisa marcada pela lama, fora do calção, o agressivo nove às costas, ingressou no vestiário do São Paulo, onde depois do jogo não foi mais encontrado por ninguém.

Na quinta-feira treinou, o mesmo na sexta, mas sempre no time de reservas. Assis era o centroavante titular. Carlos Alberto Silva não tinha dado nenhuma explicação e para muitos nem precisava fazê-lo. Afinal, Serginho insistia nas atitudes indisciplinares.

O centroavante resolveu procurar o treinador e informá-lo que não tinha condições de jogar contra o Comercial, em Ribeirão Preto. Alegou uma dor já informada ao médico José Carlos Ricci. O técnico disse que iria consultar o chefe do D.M. para saber de maiores detalhes.

Antes de saber da decisão final, Serginho deixou o Morumbi. Foi para casa. Não seguiu com a delegação, apesar de estar relacionado. Um sábado agitado no frio Morumbi.

A diretoria dizendo que ocorreu apenas um mal entendido e que tudo seria solucionado nesta segunda-feira. Depois, outros dirigentes afirmando que Serginho seria multado em 60% dos vencimentos. E surgia também a informação de que Carlos Alberto Silva estaria pedindo providências mais radicais contra o ato de Serginho.

O presidente Antonio Nunes Leme Galvão prometeu que tudo terminará bem, quando Serginho for ouvido e quando técnico e jogador conversarem: “Conversando tudo voltará ao normal. Um atrito é natural e cabe, aos não envolvidos, trabalharem para que ele seja eliminado”.

No sábado à noite, sozinho em sua residência – a esposa e as filhas estavam na casa de um parente – Serginho sabia que a confusão seria grande no início da semana:

“Não adianta esconder: não gostei mesmo de ser substituído. Não estou criticando a entrada de Assis no time do São Paulo. Ele é um ótimo jogador, tem condições de jogar na equipe, mas a maneira com que venho sendo sacado do time é que não posso concordar”.

“Senti que não estava em condições de jogar em Ribeirão Preto. Avisei o técnico sobre isso e deixei claro que não compensaria viajar para ficar fora do time”.

“Há um atrito. Eu e o técnico não estamos nos entendendo bem”.

“Respeito a sua personalidade, mas exijo que respeita a minha. Dois bicudos não se beijam…”.

Serginho não esconde que este talvez seja o momento de sair do São Paulo:

“Sei que a minha imagem está arranhada. Tudo depois daquela confusão em Ribeirão Preto, quando fui punido por 14 meses. Depois daquilo, qualquer coisa é vista com reservas. Tudo que eu faço acham que tem um fundo criminoso”.

“Tenho a consciência tranqüila. Tenho amigos, tenho família, gosto das pessoas, mas continuo marcado. Catimbo em campo, como qualquer outro jogador, mas sempre sou visto como um marginal”.

“É claro que estas substituições ajudam a ressaltar ainda mais a figura do indisciplinado. Para mim, não ajudam em nada…”.

“Acho mesmo que a torcida está saturada de mim. Gosto do São Paulo, afinal, são muitos anos dedicados a este clube maravilhoso, mas os torcedores culpam o Serginho pela derrota ou pelo péssimo futebol do time. A fase agora é boa, mas se não consigo dominar uma bola, imediatamente as vaias são ouvidas”.

“Sinto que preciso mudar. Seria bom para o São Paulo e para mim. Acho mesmo que se o São Paulo colocar o meu passe a venda surgiriam muitos interessados”.

Sorrindo, Serginho diz que se fosse o presidente do São Paulo venderia o passe do centroavante por “cinqüenta milhões de cruzeiros”.

Há informações de que o Internacional de Porto Alegre já ofereceu ao São Paulo cinqüenta milhões de cruzeiros, mas o presidente Galvão pediu 80 milhões e mais o passe de Batista.

Serginho admite que em muitos momentos a irritação é aflorada e ele não consegue conter-se pelo fato de “sentir que é o momento de mudar”.

Além, é claro, de buscar a verdadeira independência financeira, o jogador não quer ser desonesto com o São Paulo:

“Talvez não saiba nem explicar direito, mas estou desgastado no São Paulo. É um clube ótimo para um profissional, mas existem certas coisas que não se consegue explicar”.

Serginho, entretanto, admite que uma conversa pode mudar tudo: “Sei que nesta segunda-feira haverá reuniões e muita coisa pode ser alterada”. O Flamengo também está sondando o atacante.

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