Paulo Isidoro: “sou um negrinho que luta até morrer”

* Publicado na Gazeta Esportiva de 19/06/1982

SEVILHA – (De Wanderley Nogueira, enviado especial para A GAZETA ESPORTIVA)

Paulo IsidoroO momento, no Estádio Mairena, em que o técnico Telê Santana escalou Toninho Cerezo no lugar de Paulo Isidoro, para a partida de ontem contra a seleção da Escócia, já era do conhecimento de todos. Paulo Isidoro não sabia de nada, foi surpreendido por inúmeros microfones diante de seus lábios, esperando respostas do jogador, após a decisão do treinador.

Paulo Isidoro demonstrou tranqüilidade, mas os seus olhos demonstraram enorme decepção. Os ombros arcaram um pouco, o caminhar até o centro do campo não foi alegre como nos outros dias. Aquele moço, taxado há bem pouco tempo de “ponteiro dos sonhos de Telê” tinha perdido a posição mais uma vez…

Paulo Isidoro treinou, correu muito atrás da bola, fez algumas bonitas jogadas individuais e depois foi para o vestiário. Elogiou Cerezo, o seu rival, pelo caminho e disse considerar o jogador do Atlético Mineiro como um fora de série.

Mas esta conversa com Paulo Isidoro, o pai do menino Rafael – alguém que faz parte de todos os sonhos e inspirações – vai retratar o que realmente sentiu o jogador r homem Paulo Isidoro, ao perder a condição de titular, mais uma vez….

Enquanto alguns jogadores estavam – a maioria – dentro do ônibus verde-amarelo, Paulo Isidoro ficou conversando com alguns amigos no pátio do estacionamento. Com o agasalho do selecionado, com a bolsa apoiada no ombro esquerdo, com os olhos tristes de quando em quando olhando para o chão, como se procurasse uma explicação:

“Eu sou um homem de esquemas, jamais pensei em mim somente, penso no grupo, no resultado final. O que importa, sempre, são os pontos que o meu time conquista. Sei que os que não jogam são tão importantes quanto os que jogam…”

“Numa seleção, principalmente, o grupo unido consegue coisas incríveis. Se a desunião pintar, será o prenúncio de fracasso, pode ter certeza disso…”

“Claro que gostaria de ser o titular da equipe, jogando bem e não provocando nenhum tipo de dúvida ou contestações…”

“Desde o início do trabalho do técnico Telê Santana, tendo sido escalado para fazer a função de falso ponta, sei que executo corretamente a minha função. Claro que com ser humano, estou sujeito a falhas. Em alguns jogos não fui, então surgiu o nome de Dirceu para jogar por aquele setor. Ele é um bom jogador, tem fôlego, topa cumprir missões táticas e tudo bem…”

“Nos treinamentos ele foi bem, agradou mesmo e eu disse isso muitas vezes, lá e Portugal…”

“Nunca critiquei um companheiro meu ou alguém que tivesse jogado no meu lugar. É uma questão de filosofia. Tenho consciência para respeitar primeiro, para depois ser respeitado. Dirceu, para muitos ganhou a posição, também para o técnico Telê Santana e jogou contra a União Soviética. Fui chamado para jogar no segundo tempo no lugar de Dirceu e acho que fui bem. Aliás, todos acharam isso, também o nosso treinador. Mas com a liberação de Toninho Cerezo, alguém tinha que sair da equipe e o Telê nunca deixou de dizer isso. Muitos nomes surgiram: Zico, machucado… Serginho, talvez… ou o meu. Aliás, todos disseram que se alguém tinha que sair só poderia ser o Paulo Isidoro. Entendo isso, o fato de se atuar pelo time, para o sistema, uma espécie de alternativa tática, diminui o prestígio. Isso é normal, mas não estou sendo enganado. Já sabia disso, antes de viajar para a Europa. Se alguém tivesse que sair, seria eu….”

“Não estou revoltado ou magoado. Apenas tenho certeza que voltarei a ser considerado titular do time, sem dúvidas, e não serão poucos os que irão me chamar de insubstituível mesmo.”

“Minha força de vontade é enorme, não sou homem de me entregar com passividade diante de uma situação desfavorável.”

“Sou um negrinho de garra, de coração, que luta na vida ou pela vida até morrer, até o fim. Sei das minhas qualidades físicas e técnicas. Pensei muito e cheguei a conclusão que posso ser útil ao time jogando nele. Claro que eu tenho que provar mais, com seriedade, com lealdade. Não faço nenhuma crítica ao Telê Santana. Em nenhum momento ele me afastou de seus planos.”

“Fiquei chocado quando fui informado por alguns repórteres que estava fora do time para a entrada do Cerezo. Mas depois pensei que houve um mal entendido. Todos os jogadores estavam no gramado, eu fui o último a entrar e o Telê pensou que eu já estava em campo e resolveu anunciar através do jornalista Roberto Vieira, assessor da CBF, a informação. Ele não faria nada para me desprestigiar. Mas deixei claro que a Seleção não terá um reserva calmo, sossegado, alegre com o banco. Já falei com o Telê que o deixarei com um problema. Vou treinar, vou lutar por uma condição de titular e ele que resolva quem vai perder o lugar. Acho que não seria honesto comigo nem com a Seleção se aplaudisse o meu rival, sem luta para assumir a posição.”

Paulo Isidoro interrompe o assunto, o ônibus vai embora e só falta ele. não importa como Paulo Isidoro foi no jogo contra a União Soviética , nem como foi a partida contra a Escócia. Aquele mineiro franzino é um guerreiro. Só vai parar de lutar quando conquistar um lugar no time. Antes de subir os degraus do barulhento ônibus, ele sorri e dá um recado ara um conterrâneo: “Vou falar ao Rafael quando ele crescer, que quando jogar futebol, se ele jogar, que escolha uma posição e que brigue por ela até o fim. Nada de ser eclético, nada de ser polivalente porque será sempre o primeiro a sair. É verdade que se tiver méritos ele voltará, mas os obstáculos são várias e a luta permanente intensa.”

Paulo Isidoro é o mais baixo jogador do grupo, uma figura simpática. Sempre agradável, educado, sorridente. Entre os companheiros tem vários apelidos, como “zulu”, “toco”, e outros. Possui um excelente relacionamento e é tratado com extremo carinho.

Houve uma certa tristeza pelo fato dele sair do time para Cerezo entrar, apesar do bom ambiente do médio volante. Pela dedicação de Isidoro, os jogadores, numa posição sólida e política, diziam que “infelizmente um time não pode jogar com 12.”

Mas o alerta de Isidoro não deve ser esquecido: “Volto nesse time, como titular indiscutível, sem contestações, não sei no lugar de quem…”

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