Paulo Isidoro: “Nunca fugi de ninguém”

* Publicado na Gazeta Esportiva de 07/01/1981

Com 27 anos de idade, Paulo Isidoro começou a ganhar de vez uma posição na Seleção Brasileira depois do jogo contra a Argentina.

Entrou no time numa hora difícil e desempenhou sua missão com maestria e acima de tudo com muita vontade.

Com espírito de Seleção.

Não se assustou diante de rostos duros e agressivos e não fugiu da luta quando provocado pelos irritadiços platinos.

Sua convocação foi contestada por muitos e até o jogo contra a Argentina, ninguém entendia porque Telê resolveu ficar com Paulo Isidoro e não relacionar o hábil Pita.

Um treinador tem que estar consciente, tem que ter sorte, tem que ter sentir que o melhor para o time tem que prevalecer e com Telê Santana isso tem acontecido.

Logo após a partida conta os argentinos as rádios argentinas e uruguaias enalteciam Paulo Isidoro, perguntando insistentemente porque “aquele simpático “neguinho” está fora do time do Brasil se joga tão bem”?

Os jornalistas brasileiros, satisfeitos, diziam que aos poucos o futebol daquele “saci” começaria a aparecer.

Enfim, de um instante para outro Paulo Isidoro começou a projetar confiança a todos.

Conquistou todos os brasileiros num momento em que o jogador não pode pipocar, pensar em suas pernas, ou mesmo não ter estrutura para resistir tanta pressão.

Aparentando um menino, mas com 27 anos, é o mais antigo da seleção, juntamente com Zico – atualmente em tratamento no Rio de Janeiro – Paulo Isidoro é o reflexo do futebol: ginga, malícia, enjoado para o adversário e eficiente para o time de Telê Santana.

Foi o jogador mais procurado nas últimas horas, principalmente quando declarou sem medo ou meias palavras:

“Aquele tal de Maradona quis mostrar que era machão antes mesmo do jogo terminar, prometendo pegar-me. Ora, não fujo de ninguém e fiquei prevenido. Quando percebi que ele corria para cima de mim, pulei fora e ele está me procurando até agora. Falaram tanto e como foram totalmente envolvidos pelo futebol brasileiro, perderam a cabeça, mas nosso time é composto por machos e eles terão que engolir isso por muito tempo”.

Todos os jogadores do Brasil, principalmente Tita que poderá perder mesmo o lugar para Paulo Isidoro, fazem questão de ressaltar o futebol do “rival”:

“Ele permite alternativas para os companheiros, sabe buscar espaços vazios, sabe abrir defesas, é chato desde o momento em que entra em campo e o técnico deve mesmo prestigiá-lo”.

“Aqui existe um grupo unido e ninguém é contra ninguém”.

“O objetivo geral é colaborar para conquista de vitórias”.

“O fato de jogar ou não é uma questão de momentos’.

“Hoje ele está bem, amanhã serei eu. Assim é o futebol”.

Ontem após o treinamento realizado em Los Aromos, Paulo Isidoro falou sobre a esperança de conseguir um lugar na equipe principal da Seleção Brasileira:

“Está na hora de eu mesmo arrumar minha vida”.

“Respeito os companheiros e o treinador, mas sei que na medida em que os dias vão passando um jogador de futebol vai ficando ultrapassado e não pode perder tempo”.

“Estou dando tudo de mim e quando entrei na equipe contra a Argentina, estava mesmo disposta a arrebentar com eles”.

“O Telê Santana disse que o marcador, o lateral esquerdo, era um péssimo marcador e fui pra cima dele e deu certo”.

“Ganhei todos os lances e isso irritou todo o time argentino”.

“Teremos agora a Alemanha e o futebol alemão merece respeito e espero ser mantido no time, desde o início”.

“Não importa qual a posição”.

“Aceito jogar na ponta direita, no meio, enfim, onde o Telê Santana determinar”.

“Aqui quem decide é o treinador”.

“Dizem que o Telê não é um democrata – e sorri – mas tem que prevalecer a opinião do treinador”.

“Já pensaram o que seria se cada um desse um palpite ou uma opinião?”.

“Enquanto estive na reserva todos tiveram o meu respeito, mas nunca escondi que estava brigando por uma posição de titular e sei que todos irão respeitar-me”.

“Um jogador tem que dar coração”.

“Tem que marcar, atacar, correr o campo todo e o futebol de hoje não permite mais comodismos”.

“Vejam esta seleção: todos correm”.

“Todos colaboram, todos estão unidos, todos ganham e perdem juntos”.

“Se depender de diálogo, vamos ser os campeões do mundo em 82”.

“Gente, quero jogar”.

“Quero provar que o Telê Santana não errou quando chamou-me”.

“Ele conhece o meu futebol e felizmente depois da partida contra a Argentina as pessoas passaram a acreditar mais em mim”.

“Não poderia decepcionar o treinador, pois certamente ele ficaria numa situação difícil se um jogador convocado por ele não produzisse o esperado”.

“Estava esperando uma oportunidade e ela surgiu numa hora tensa, mas soube ultrapassar a tudo e jogar o meu futebol”.

O Serginho logo após o treinamento comentava, sorridente, antes de ingressar no vestiário do campo de Los Aromos:

“Esse “neguinho” é terrível”.

“Deixa qualquer defesa maluca e contra a Argentina todos viram isso”.

“Não é muito forte, mas é corajoso e não leva desaforo para casa”.

“Apesar do seu jeito humilde, não é bobo e sabe dar o troco dentro do jogo quando atingido maldosamente”.

“Sou fã do Paulinho”.

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