O Guerreiro Roberto e uma verdadeira história de amor

* Publicado na Gazeta Esportiva de 31/01/1984

O artilheiro Roberto Dinamite enfrenta um sério drama familiar. A mulher – Jurema – uma mistura de amante, amiga e companheira – está doente e Roberto tem respirado inteiramente o problema. Mas, no futebol, não se abateu. Intensificou os treinamentos, tem cobrado faltas com maestria, e em nome do amor tem jogado por Jurema.

Jurema, mulher, amiga, companheira, procuradora e principal incentivadora de Roberto. Há a necessidade da implantação de um rim e os desdobramentos dos problemas estão provocando infindáveis e minuciosos exames e inúmeras transfusões de sangue. Nem mesmos os sofisticados recursos da medicina dos Estados Unidos estão conseguindo minimizar o drama vivido por Jurema e absorvido na íntegra por Roberto.

E com 30 anos de idade, cabelos grisalhos, semblante triste, olhos magoados, de quando em quando um sorriso forçado. Roberto Dinamite é o principal jogador do Vasco da Gama. Está reforçando a sua imagem de bom profissional, frio dentro de campo e capaz de decidir partidas ou marcar gols importantes.

Misticamente chamada de “cabocla”, Jurema tem ajudado Roberto nos últimos anos a superar crises, acusações, fases delicadas e irregular condição física. Tem sido Jurema que surge com abraços amigos, beijos afetuosos, além de um amor reconfortante.

Ela conseguiu fazer com que Roberto passasse a ignorar vaias, deixasse de se entusiasmar com elogios fáceis e fizesse o melhor possível dentro de cada jogo do seu clube. É ela que costuma esperá-lo na porta do Maracanã, após cada jogo, derrotado ou vitorioso.

Mais velha que Roberto, Jurema tem funcionado como conselheira e, como diz o próprio Dinamite: a mulher certa, nas horas incertas.

De um momento para o outro, Roberto tem podido contar com a presença constante de Jurema. Está acompanhando de perto as suas dores, os seus anseios, as suas esperanças. Tem participado da luta diária em busca de uma solução por parte da medicina.

Roberto não admite falar a respeito, mas há informações que merecem crédito, de que Roberto se ofereceu para ceder um rim – rejeitado pelos exames – e tem gasto milhões de cruzeiros mensais na corrida contra o tempo e abordando todas as alternativas científicas. Afirmam até que Roberto Dinamite não tem poupado muitas de suas propriedades, transformando-as em recursos exigidos pelos tratamentos realizados por Jurema.

E Roberto tem mostrado uma força de guerreiro, um total equilíbrio, estabilidade plena. Está conseguindo impedir que o sério problema familiar interfira no seu rendimento dentro de campo. Alto, pernas musculosas e boa colocação. Dinamite é um tormento constante para os zagueiros adversários.

Nos últimos tempos, tem treinado muito e no último jogo – contra o São Paulo – marcou dois gols cobrando faltas. É a maior prova da sua frieza e postura robusta. Não está se deixando abater. Caminha e olha à frente, esperançoso e confiante. Os mais íntimos dizem que ele está jogando pela a sua amada Jurema.

O artilheiro Roberto Dinamite nasceu em meio ao campeonato nacional de 72, no Maracanã. Foi escalado pelo técnico Mário Travaglini e marcou o primeiro gol contra o Internacional (o Vasco ganhou por dois a zero) de maneira sensacional. Depois de passar pelo altivo Figueroa, chutou com incrível força. Mais pareceu uma explosão de Dinamite. No dia seguinte, todos os jornais cariocas falavam de “dinamite”, “bomba atômica” e outros explosivos similares. Nasceu o apelido. Roberto garantiu vários títulos, foi aplaudido por milhares e abraçado com muita emoção. Mas, também deixou estádios atingido por vaias inenarráveis.

É um dos mais implacáveis atacantes do futebol brasileiro. Ele marcou gols de costas, de lado, de frente, de canela. Gols cinematográficos e gols de “peladeiro”.

Simples, humilde, às vezes deixando escapar um sorriso meio debochado, o mesmo com que responde aos pontapés dos zagueiros.

“Dizem que eu e o Waldir Peres rimos muito. Mesmo quando me acertam com maldade. Tenho sempre uma resposta para os adversários que passam o jogo querendo me intimidar na esperança que eu saía da área. Aponto para o gol e mostro o placar quando o Vasco está ganhando. Eles sabem que não tenho medo de sarrafo.”

Excelente impulsão para cabecear ou dominar no peito. Chuta forte e bem colocado. Rápido no arranque. Roberto Dinamite admite que a sua presença na área é a sua principal virtude. Reconhece que nasceu mesmo para marcar gols. Ainda assim, de quando em quando, recua para dar combate aos adversários.

Mário Travaglini, o responsável pelo lançamento de Roberto no time principal do Vasco da Gama, sente-se feliz por isso:

“É um fato gratificante para mim. Lancei o Roberto e os anos mostraram que ele é um dos maiores artilheiros do futebol brasileiro. No jogo contra o São Paulo, por exemplo, Oscar e Dario Pereira tiveram um enorme trabalho com ele. Além do mais, está cobrando faltas de maneira brilhante. Pode ser comparado com Zico, sem nenhum exagero.”

“Ouvi algumas pessoas criticando o Waldir Peres, mas na minha opinião, os gols saíram em virtude e talento do Roberto nas cobranças. E também, vale lembrar, essa precisão não surgiu da noite para o dia. Ele tem procurado a perfeição, sei que está treinando muito, com dedicação enorme. E além do mais, está mostrando a sua força, não se deixando atingir pelo drama vivido pela mulher, Jurema. No campo, ele se supera, embora tenha certeza de que não deixa de pensar um minuto se quer na recuperação da esposa.”

Em 74, foi o principal artilheiro do Brasil e, durante muitos anos, artilheiro estadual. Há anos que disputa a artilharia de todos os campeonatos. Em 83, nada deu certo. Além dos problemas que envolveram Jurema, os gols se afastaram. Aos poucos, ele foi se recuperando, crescendo, elevando a cabeça. Roberto nunca foi de se entregar.

No último domingo, ao deixar o Maracanã, Roberto ouviu elogios e aplausos. O Vasco tinha sido derrotado pelo São Paulo, mas Dinamite saiu vitorioso, com jeito de goleador. Olhou agradecido pelos torcedores inflamados do Vasco que, em meio aos protestos pela derrota, o apontavam como exemplo de garra e seriedade.

No grande portão que dá acesso aos vestiários, Roberto sentiu o coração ficar apertado, Jurema, a mulher-companheira não estava esperando por ele. Em passos lentos, dirigiu-se ao estacionamento, parando apenas para conceder alguns autógrafos em pedaços de papéis ou mesmo nas camisas dos torcedores. Roberto é um profissional e merece respeito.

O país vive uma carência de responsabilidade e a seriedade rareia, em todos os campos de atividade. O atacante do Vasco da Gama é um brasileiro autêntico. Vencendo tristezas, golpeando as mágoas, ultrapassando as péssimas notícias e repleto de grandes esperanças.

Comentários

comments