O dia mais longo na vida de Zé Sérgio

* Publicado na Gazeta Esportiva de 15/11/1980

 

Zé Sérgio não dormiu. Ficou andando pelo apartamento, tentando em alguns momentos combater a insônia, a tensão, o desespero e os primeiros sintomas de revolta. Sabia que no início da manhã o Laboratório de Análises da Universidade de São Paulo trabalharia no sentido de ratificar ou não o resultado do primeiro exame da urina colhida após a partida entre São Paulo e Internacional de Limeira.

Tinha grandes esperanças de que a contra prova determinasse a imediata revogação da suspensão preventiva e que tudo desaparecesse como se não tivesse acontecido.

Ao lado do pai, deixou o prédio onde reside – um edifício muito mais triste que outros dias – e foi para a Federação Paulista de Futebol. Nas avenidas, nas ruas, no estacionamento, na portaria da FPF, só demonstrações de apoio por parte de executivos, bancários, balconistas, jornaleiros, corinthianos, palmeirenses, santistas, meninos, meninas, estudantes, cambistas, policiais e evidentemente por parte de torcedores do São Paulo. Não encontrou pelo caminho nenhuma voz crítica, um comentário desagradável, uma prova de desconfiança ou sequer um rosto inimigo. Parou numa banca de jornais e viu manchetes de solidariedade representando a opinião de todo um povo, a posição do próprio futebol brasileiro que precisa dele mais do que nunca e que confia no seu melhor ponteiro esquerdo.

Zé Sérgio foi o primeiro a depor diante da Comissão de Sindicância presidida por Murilo Antunes Alves, assessor jurídico da Federação Paulista de Futebol, enquanto no corredor, abatido pelo drama, seu pai aguardava uma decisão rápida. Queria ver o filho longe de tudo aquilo. Dezenas de fotógrafos, radialistas, jornalistas e dirigentes. Médicos, advogados e técnicos discutiam o assunto e as opiniões eram totalmente favoráveis ao jogador:

“Essa lei ridícula tanto fez que conseguiu machucar uma das maiores esperanças do futebol brasileiro”.

O depoimento de Zé Sérgio demorou 18 minutos e com a mesma tranqüilidade de sempre afirmou:

“Contei toda a verdade e espero que a contra prova dê negativa e isso tudo acabe ainda hoje”.

Depois de dezenas de entrevistas deixou apressadamente o prédio da FPF buscando encontrar um pouco de silêncio e paz, perto do pai, da mãe, dos irmãos, dos tios e dos avós.

Ao entrar no apartamento, encontrou olhares aflitos, esperando uma boa notícia, um sorriso daquele menino que tinha sido acusado de jogar dopado, algo desacreditado até mesmo pelo presidente da Comissão Antidopagem, Osmar de Oliveira. Zé Sérgio forçando um sorriso disse: “Bem gente, vamos esperar o resultado da contra prova’.

A espera foi angustiante, dolorida e injusta. No laboratório da USP, os médicos Daizel Freire de Gaspar e José Carlos Ricci, acompanhavam o trabalho demonstrando preocupação. Sabiam que dificilmente o resultado seria outro. Raramente a contra prova altera a análise primeira. Horas se passaram e às 15h15, abatido, ferido, camisa aberta e olhos vermelhos, José Carlos Ricci afirmou: “O exame ratificou a presença da substância química proibida. Agora espero que surja a justiça. O Zé Sérgio não cometeu nenhum crime, não tomou nenhum remédio nas vinte e quatro horas que antecederam a partida e no período considerado como livre ingeriu Naldecon, um simples antigripal vendido em todas as farmácias”.

Um técnico em Farmacologia ladeando o médico do São Paulo, garantiu: “Isso é brincadeira. Esse remédio jamais poderia ser considerado estimulante. É muito fraco e quando muito, provoca um leve sintoma de sonolência. É um crime fazer isso com o Zé Sérgio”.

Quinze minutos depois, Zé Sérgio recebia a notícia e ficou chocado, e a família procurou um canto discreto para deixar mais escapar mais algumas lágrimas. Surgia então, a esperança na Justiça que seria cometida por Murilo Antunes Alves, e ratificada por Nabi Abi Chedid. O relatório da sindicância poderia rever ou confirmar a prevenção preventiva.

A tensão encarregou-se de tomar conta do ambiente. Um silêncio contundente, duro, e muito significativo. Muito tempo se passou e por volta das 22 horas surgia a informação de que somente hoje Nabi e Murilo decidiriam se Zé Sérgio seria liberado e julgado na próxima terça-feira, ou se continuaria suspenso preventivamente.

A noite foi horrível para toda a família. Uma família unida na alegria e na dor. Mas a confiança não diminuiu e todos acreditam que neste domingo Zé Sérgio estará em campo. O próprio jogador confessa isso: “Não perdi a esperança. Confio no presidente da FPF e no doutor Murilo. Aceitarei qualquer decisão, mas sonho em atuar neste primeiro jogo com o Santos”. Foi para o seu quarto, deitou-se na cama e apanhou a bíblia e leu o salmo 91, indicado para aqueles que passam por momentos difíceis.

“Leio sempre esta bíblia que ganhei do João Leite, goleiro do Atlético Mineiro e da Seleção do Brasil. Confio em Deus, acredito nele, sei que minha fé não será machucada e no final de todo este drama a justiça falará mais alto. Neste momento difícil recebi apoio integral da imprensa, dos amigos, da família, da torcida e dos companheiros. Amigos de todos os clubes insistiram em falar comigo e ressaltaram o apoio total. Sinto que jogarei domingo contra o Santos”.

Fatos importantes aconteceram na vida do moço Zé Sérgio, ontem, naquele que ele mesmo consideraria “o mais longo dos meus dias”, como por exemplo à manifestação do presidente do Santos, Rubens Quintas: “Fiquei sabendo que algumas pessoas disseram que se o Nabi revogasse a punição o Santos protestaria. Isso não é verdade. O Zé Sérgio é uma das maiores estrelas do futebol brasileiro. O Santos quer vê-lo em campo, confia nele, acredita na sua integridade como profissional e como homem e se depender do meu clube Zé Sérgio estará em campo nestas finais”.

Rubens Quintas conseguiu tocar Zé Sérgio: “Confesso que tinha medo de que o Santos criticasse a minha possível liberação, mas a posição do presidente do Santos deixa-me tranqüilo e feliz”.

Enquanto Nunes Galvão dizia que todo o elenco está ao lado de Zé Sérgio e que o São Paulo lutará com todas as forças para que a justiça prevaleça, o centroavante Serginho entrou no quarto de Zé Sérgio e abraçou o companheiro. O maluco Serginho, uma figura humana maravilhosa, quis dar apoio ao ponteiro esquerdo, levando esperanças, sorrisos e até combinando jogadas para a partida de amanhã. O telefone não parou de chamar durante todo o dia: famílias inteiras insistiam em falar com os pais de Zé Sérgio, enaltecendo o moço e esclarecendo que todos acreditavam nele.

De quando em quando alguém não resistia e corria para um canto da casa, deixando escapar lágrimas e tentando não preocupar ainda mais o filho, neto, sobrinho e irmão.

Foi um dia escuro para Zé Sérgio. Só não foi pior como ele mesmo fez questão de registrar pelo braço coletivo estendido:

“Estou triste e ao mesmo tempo incrivelmente contente. Poxa, não importa se a lei é falha, ineficiente, injusta e outras coisas mais, já que talvez agora ela seja corrigida. Para mim o mais importante foi à manifestação popular. Não ouvi uma crítica, uma frase de desconfiança ou mesmo uma demonstração de má fé”. Ontem foi segundo Zé Sérgio o mais longo dos seus dias. Hoje espera com a mesma esperança a posição de Nabi Abi Chedid. O presidente da FPF tem nas mãos talvez o mais importante problema da sua administração. Envolve talvez o melhor futebolista da atualidade brasileira. A voz unânime do povo brasileiro é segundo alguns observadores muito mais importante e concreta que qualquer contra prova. A substância química proibida, emitida por um antigripal, é uma realidade. Mas todos sabem que Zé Sérgio não procurou dopar-se. A sua sinceridade é flagrante, gritante, clara, objetiva. Nabi tem nas mãos um bisturi que pode ou não provocar um corte profundo e talvez irreparável num moço que todo o País de um momento para outro resolveu adorar.

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