Morreu um bravo: João Henrique

* Publicado na Gazeta Esportiva em 12/03/1982

João Henrique1

João Henrique (c) em evento realizado no Bairro do Pari, em São Paulo

João Henrique foi sepultado ontem á tarde no cemitério da Vila Mariana. Aproximadamente duas mil pessoas estiveram no velório do ex-campeão, entre elas políticos, amigos, admiradores e gente ligada ao boxe, e acompanharam o seu sepultamento. Dagmar, esposa de João Henrique, manteve-se o tempo todo lúcida e tranqüila, chorando baixinho quando era cumprimentada por pessoas mais chegadas. Esse foi o caso de Éder Jofre, que esteve acompanhado de sua esposa Aparecida. “É difícil falar qualquer coisa em um momento como esse. Só posso dizer que convivi muitos anos com João Henrique e que ele era um grande amigo meu. Defendeu e projetou muitas vezes o nome do Brasil no exterior, quando disputou o título mundial em quatro oportunidades. A perda é muito grande e irreparável.” Pela manhã, nas várias entrevistas que deu, a esposa Dagmar dizia apenas que “normalmente o João retornava da escola por volta da uma hora da manhã. Quando fui acordada de madrugada pelo meu pai, senti que tinha acontecido alguma coisa grave com ele.”

O boxe e o esporte brasileiro perderam ontem parte da sua própria história com a morte de João Henrique da Silva, ex-campeão brasileiro e sul-americano dos médios-ligeiros e um dos maiores pugilistas do país.

João tentou por quatro vezes o título mundial, depois de vencer adversários importantes como o norte-americano Eddie Perkins e o inglês Maurice Cullen. Aquele cearense de Juazeiro trocou socos na Argentina, Itália, Espanha e Japão.

De origem humilde, João Henrique resolveu enfrentar os obstáculos da vida. Buscou no boxe o consagração buscada por todos os migrantes. Mas a caminhada era dura, difícil, repleta de abismos, decepções e mágoas. Sabia que seu corpo poderia levá-lo a disputas importantes e cuidava dele. Não tinha vícios, procurava se alimentar bem, corria atrás do leite, da carne, do feijão. Nunca elevava a voz e gerava amigos e admiradores a cada dia.

Como amador, começou atrair sobre si grandes atenções. Ele era diferente da maioria. Tinha punhos robustos, se tornava agressivo e jamais fugia do combate. Estava acima da média.

Ingressou no profissionalismo. O boxe profissional com seus mistérios, seus ídolos, seus fracassados, seus interesses, suas vidas e acidentes.

Conquistou uma companheira, esposa, amiga, mãe. Ela evitou que fosse manipulado, utilizado usufruído e então ele “pulou” fora dos ringues. Por insistência dos amigos mais próximos ele resolveu estudar. Aquele moço inculto, em pouco tempo assimilou muitos ensinamentos e ingressou na faculdade. Um outro sonho realizado: deixou de socar e ser socado, estava forte, capaz, defensor integralmente do boxe para os jovens idealistas e poderia ter sucesso numa outra carreira: professor de Educação Física. A família estava radiante. Chega… a participação de João no boxe já tinha acontecido. Sua parcela tinha sido dada e como…

O rosto não ficaria mais marcado, o sangue não escorreria os supercílios, os olhos não ficaria mais inchados, o estômago não seria mais atingido e seus joelhos não dobrariam jamais. Não veria mais homens como ele, derrotados à sua frente, caídos na lona. O seu tempo já tinha passado. Logo, logo, seria João Henrique, professor.

E como ele lutava para alcançar o diploma. Dormia pouco, trabalhava muito e estudava incessantemente. Deixou a faculdade em Santo André e buscou a de Mogi das Cruzes. No último ano não alcançou notas suficientes para passar a um ovo ano. Matéria: socorros e emergência.

Lá em Mogi ele participou de apenas três aulas…

Conheceu os colegas na segunda, recebeu orientações na terça-feira, se sentiu feliz na quarta-feira e morreu depois da aula.

Resolveu voltar de ônibus, como tantos outros alunos. Introvertido, buscando alguns minutos de silêncio, se sentou no fundo do coletivo. Precisava dormir um pouco, afinal, no dia seguinte ele teria que estar disposto para orientar seus alunas na Secretaria Municipal de Esportes. Ele já trabalhava como professor de Educação Física, era um atleta perfeito e um ótimo exemplo.

Dagmar estava acordada, esperando o marido para o jantar da madrugada. O filho de sete anos (também João Henrique) dormia. João Henrique não chegou.

O ônibus capotou e os alunos foram jogados de um lado para o outro. João acordou com o choque e com as pancadas. Segundos depois de um silêncio doloroso. João, o forte João, levantou e passou a auxiliar as vítimas. Carregou alguns companheiros para fora do ônibus, entre eles uma mulher grávida. Ele atendeu todos… quando alguém lhe perguntou se ele estava bem, a resposta foi direta como um soco no queixo: “Não se preocupam comigo… preciso tirar todos daqui.”

Não seria um “acidente qualquer que derrubaria aquele monte de músculos possuidor de um enorme coração.” (Geraldo Blota)

Foi isso que a família pensou quando informada do acidente. Mas todos estavam enganados. Costelas quebradas, pulmões perfurados, pressão intensa no tórax, o mataram.

Os médicos não conseguiram entender como um homem tão ferido teve forças para salvar vidas., andar, ficar a pé, carregar pessoas, evitar maiores sofrimentos.

A explicação não está nos livros, está na vida, no interior de cada homem. Somente u8m guerreiro poderia agir desta maneira. Na hora da dor, ele ficou preocupado com os outros. Não importa o seu sangue. Importa o sangue do seus amigos, dos semelhantes.

É assim que um lutador morre. É assim que os heróis morrem. É assim que os campeões são sempre campeões.

Ele caiu porque todos caem. Hoje ou amanhã, todos são derrotados pela morte. Uns dentro do ringue, muitos fora dele. João Henrique teve a força de cair como caem os grandes. O filho continuará tendo orgulho do pai, a esposa continuará a idolatrá-lo, os amigos jamais irão esquecê-lo.

Uma coisa ele também provou na hora de sua morte: foi aprovado com louvor na matéria. “socorros de emergência”.

Uma carreira de campeão

João Henrique iniciou sua carreira na Forja dos Campeões de A GAZETA ESPORTIVA de 1962. Na ocasião foi considerado e destacado como o maior lutador do torneio. Posteriormente se manteve em plena atividade, ganhando todos os títulos regionais. Em 1963, depois de superar as eliminatórias, João Henrique foi escalado para defender o Brasil nos Jogos Pan-Americanos, em São Paulo. Teve participação positiva, perdeu apenas a final, face de problemas de ordem de saúde (gripe). Em condições normais dificilmente seria batido pelo cubano Roberto Cann.

Um ano depois João Henrique estava entre os três pugilistas brasileiros que participarão da Olimpíada de Tóquio. Também teve boa participação, derrotou dois oponentes sendo que um deles foi atirado para fora das cordas. As rádio-fotos mostraram ao mundo os momentos mais importantes da carreira deste pugilista brasileiro.

Em 1964, bastante motivado, João Henrique ingressou no profissionalismo. Em seguida, foi bem programado, ganhando todas as lutas contra adversários estrangeiros. Entre eles, Alfredo Paz, Miguel Brizuela, e outros.

Projeção

No dia 5 de novembro de 1965 que João Henrique ganhou fama, atuando na preliminar de Jofre x Manny Elias, promoção de A GAZETA ESPORTIVA, João Henrique derrotou por nocaute José Pettropolli e ganhou aplausos de uma platéia que lotou o ginásio do Ibirapuera. A oportunidade faz aparecer um dos grandes nomes do boxe, antevendo-se uma carreira com êxitos.

Campeão brasileiro dos médios-ligeiros, divisão que passou a atuar a partir do ano de 1964 e campeão sul-americano, sempre com boas atuações.

O acidente

O acidente que vitimou João Henrique ocorreu por volta das23 horas de anteontem no Km 43 da Rodoviária Mogi-Dutra, próximo ao trevo do Arujá, quando o motorista Carlos Domingos Granjeiro, da Viação Gaivota, perdeu a direção, derrapou, indo chocar-se com um barranco. O ônibus era utilizado pelos estudantes da Universidade de Mogi (OMEC), que voltavam para São Paulo.

João Henrique vinha no último banco, ao lado de Antônio Jorge Pereira Campos – que também morreu – quando a porta de emergência abriu e os dois foram projetados para fora do veículo. Aparentemente sem ferimentos, João estava entre as pessoas que auxiliavam as vítimas. Inclusive o ex-campeão tratou de ajudar e acalmar seus companheiros, que entraram em pânico após a colisão. A maioria dormia, no momento do acidente.

Mas depois de retirar várias pessoas do ônibus – inclusive uma senhora grávida – João se sentiu mal e foi levado por policiais rodoviários ao Hospital Lions Clube de Arujá, onde faleceu quando recebia atendimento médico, por volta das duas horas da madrugada de ontem. Segundo informações do hospital, uma hemorragia interna surgida pela perfuração do pulmão por uma costela fraturada provocou a morte do ex-pugilista. O corpo do ex-pugilista foi autopsiado no cemitério de Guarulhos.

Muitos policiais presentes ao trabalho de socorro às vítimas comentavam ontem na delegacia de Arujá que não conseguiam entender João Henrique, mesmo ferido pudesse ter auxiliado seus colegas de faculdade (ele cursava o 2° ano de Educação Física).

Além de João Henrique, faleceu também Antônio Jorge Pereira de Campos, seu companheiro de ônibus. Ele foi socorrido no Pronto Socorro do Hospital das Clínicas, mas não resistiu aos ferimentos, morrendo quando ainda se encontrava na mesa de operação. Antônio Jorge residia à rua Kitizo Utiyama, 110, no Bosque da Saúde.

Os feridos

O trágico acidente deixou o saldo negativo de dois mortos e dezenove feridos. Em estado grave foram ainda socorridos: Sérgio Dias, com fratura expostas em uma das pernas, socorrido no setor de Ortopedia do Hospital das Clínicas. Ele reside à rua Gonçalo da Cunha, 199 na Vila Mariana: o 2° Tenente do 12° BPM/M Orlando Eduardo Geraldi (Av. Fagundes Filho, 1902, Bosque da Saúde); Terezinha de Jesus Ferreira (rua Santo Amaro, 361); Maria José Sales (rua Francisco Furtado, 164 – Barra Funda) e Miriam Garrido Lia Laviola (rua Lino de Almeida Pires, 565, Jabaquara).

Outros atingidos com ferimentos leves foram dispensados horas depois de serem atendidos em Arujá. São eles Airton Miranda Cerqueira, Fernando Luís da Silva Santiero, Derci Brico, Anésio Miranda Cerqueira, José Bombi, Magda Pereira de Alclesio, Nésio Tadeu da Silva, jacinto Manuel Lopes Dias, Roberto Pinheiro, Arnaldo Mirani e Edson Carvalho de Roda Jr.

O excesso de velocidade está sendo apontado como a causa do acidente muito embora o fato deve ainda ser esclarecido, conforme informou o delegado do Arujá, Joaquim de Azevedo, que registrou a ocorrência. O motorista da empresa Danúbio Azul, Carlos Alberto Gomes Fernandes, contou que foi obrigado a frear bruscamente o seu veículo para uma maior tragédia. “Quando vi o ônibus da Gaivota desgovernado e em alta velocidade, vindo em minha direção, parei antes de ser atingido”, explicou, atribuindo ainda o acidente à pista molhada e a forte neblina.

Estudante de Educação Física, João Henrique, segundo seu sogro Geraldo Blota, tinha a opção de cursar também a faculdade de Santo André, mas preferiu Mogi das Cruzes. Ele acostumava viajar de trem para aquela cidade e, no dia do acidente, completava o seu terceiro dia de aula neste ano.

O ex-campeão era casado com Maria Dagmar Henrique da Silva e deixa um filho, João Henrique da silva Filho, de 7 anos.

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