Marinho

* Publicado na Gazeta Esportiva de 22/04/1981

Marinho ChagasCom 29 anos de idade, cabelos curtos e com a pele não muito queimada pelo sol de São Paulo, Marinho Chagas é outro jogador que esbanja personalidade. A imagem de irresponsável que Marinho projetou como jogador de futebol, ao longo da sua carreira, não existe mais.

Até mesmo aqueles que não acreditavam no homem Marinho Chagas, hoje admitem que o zagueiro mudou muito e para melhor. A grande maioria garante que ele é muito mais um moço alegre, extrovertido, brincalhão, do que um inconseqüente.

Passou por momentos difíceis e hoje está novamente integrado ao futebol brasileiro e atuando numa equipe considerada como a melhor do país.

Em 1974, Marinho Chagas foi um nome que ficou conhecido no mundo inteiro em apenas um mês. Foi elogiado em vários idiomas e figurou na relação dos dez mais do futebol mundial. Quando foi elogiado publicamente por Nilton Santos, sentiu uma grande emoção. Afinal, Nilton, considerado o mestre da posição, estava reconhecendo as virtudes do simpático Marinho Chagas.

O tempo passou,  Marinho foi atacado, crucificado, viajou, voltou e no São Paulo decidiu pensar novamente em Seleção Brasileira.

Hoje, o São Paulo precisa vencer a equipe do Botafogo. Um resultado positivo permitirá que as coisas fiquem mais fáceis para a equipe paulista no jogo de domingo contra o time carioca, aqui em São Paulo. E Marinho Chagas jogará contra o Botafogo, uma equipe que ele jogou por muito tempo e não esconde o carinho que ainda guarda por ela:

“Há coisa na vida que a gente não pode esquecer. Como um grande amor por exemplo. Fiquei tanto tempo ligado ao Botafogo que dedico um carinho especial por aquele clube, mas hoje sou São Paulo e não abro. Aliás, tenho certeza que a minha equipe vencerá no Rio de Janeiro e também em São Paulo”.

“Tudo mudou na minha vida. A diretoria do São Paulo agiu lealmente comigo, os companheiros do time são ótimos, a torcida dedica a maior atenção ao homem e ao jogador Marinho Chagas. Vivo bem com a minha família, tenho filhos, e sei que o sucesso da minha carreira depende apenas de mim. Aquele Marinho maluco não existe mais, há muito tempo. Até o estilo de jogo foi alterado. Continuo descendo para o ataque, buscando gols e tentando ajudar os atacantes. Mas são descidas conscientes e somente nos momentos corretos. Nada de exageros”.

Enquanto Marinho Chagas vai concedendo entrevistas, é cercado por dezenas de torcedores que foram ao Morumbi apoiar os jogadores. Autógrafos, brincadeiras, sorrisos e abraços. Serginho, resolveu fazer um pronunciamento: “Ninguém guenta o Marinho… é o nosso orador…”.

Serginho e Marinho se abraçaram e passaram a falar de escolas de samba. Marinho afirmando que no Rio de Janeiro sempre torce para a escola de campeã e Serginho apesar de ser ligado a Escola de Samba Camisa Verde e Branco, cantou o samba da Vai-Vai.

Então, o centroavante confessa:

“Muita gente pode pensar que é brincadeira ou demagogia, mas o Marinho colaborou muito para o nascimento de um novo Serginho. Muitas vezes ele conversou comigo e garantiu que meu sucesso dependeria do fato de colocar ou não a cabeça no lugar. É um bom amigo”.

Marinho resolveu falar sobre o assunto:

“Sabe… o meu temperamento é muito parecido ao temperamento do Serginho e acho que por isso nos damos muito bem. Brincamos, falamos assuntos importantes, analisamos nossos comportamentos e ajudamo-nos mutuamente”.

“Agora o importante é vencer a equipe do Botafogo. Joguei lá muito tempo como já disse e o time era ótimo. Há muitos anos que o Botafogo não disputa um título ou mesmo consegue bons momentos. Agora parece que o time acertou e tenho certeza que será um adversário muito difícil. Está embalado e o embalo do Botafogo eu conheço… É muito ruim para qualquer equipe que vai jogar no Rio de Janeiro. A garra do Botafogo eu conheço…”.

Marinho sorri e diz que ainda está devendo muito futebol para a torcida do São Paulo:

“Estou subindo de produção. Quando fui expulso na minha estréia, o principal motivo foi o meu péssimo condicionamento físico”.

“Com o ritmo intenso de treinamentos melhorei muito, mas ainda posso render mais. Não estou atacando como fazia antigamente e nem preciso. Os atacantes do São Paulo marcam gols e os zagueiros têm a obrigação de cuidar da defesa”.

“Cada um faz a sua obrigação e tudo bem. A união existe dentro deste time e o São Paulo está ganhando com isso”.

“Ninguém quer ser mais do que ninguém. Um tenta resolver o problema do outro e as vitórias não ficam tão difíceis”.

“Jogar no Rio de Janeiro não é fácil para nenhum adversário. Apesar do Maracanã ser enorme, a torcida carioca perturba mesmo os adversários. O São Paulo, entretanto, tem personalidade para jogar bem e vencer a equipe do Botafogo”.

“Felizmente todos conseguiram impedir a presença do excesso de otimismo. Seria terrível. Ninguém é campeão na véspera. Já vi grandes equipes de futebol serem derrotadas por não acreditarem nos seus adversários. A Taça é o símbolo da conquista. Quem consegue ficar com ela, é melhor. Não importa se jogou bem ou não. A história prova isso”.

“O São Paulo pode ser considerado o melhor time do Estado, porque é o campeão. Mas ainda não é o melhor time do Brasil. Quando os torcedores dizem que o título é nosso, eu procuro esclarecer que há um caminho duro pela frente. Se o Botafogo está na final ou caminhando para isso é porque tem valor. Idem com relação ao Grêmio, a Ponte Preta e o Operário”.

“Não somos jogadores covardes. Ou mesmo sem confiança. Muito pelo contrário: acreditamos no São Paulo. Mas acreditamos num time jogando sério, de maneira objetiva, consciente, buscando gols,  e acima de tudo uma equipe responsável”.

A voz de Marinho Chagas não é mais triste. Aquele tom de apelo não existe mais. O sonho de voltar a participar do futebol brasileiro parece que vai se transformando em realidade. Deixou o programado futebol norte-americano, ficou longe do exagerado futebol carioca e ingressou nos espetáculos paulistas. O seu futebol continua motivando como sempre, preocupando treinadores, buscando gols importantes.

Tudo leva a crer que ele conseguiu eliminar aquela imagem de irresponsável. Aos poucos vai deixando de carregar a sua pesada carga.

“Admito que seria ridículo ter insistido em usar roupas exageradas, extravagantes. Não tenho nada contra, mas para um profissional de futebol, para um homem que vive do físico, realmente não é aconselhável. É a mesma coisa de ir-se ao Municipal de bermudas”.

“Estou muito mais maduro. Os dois anos vividos nos Estados Unidos foram importantes na minha vida. Hoje sou muito mais capaz de identificar os valores da vida. Como se deve agir, aquilo que se deve fazer e quando. Faltam quatro jogos para o São Paulo tornar-se Campeão Brasileiro. Se jogar o que pode e sabe, conseguirá a conquista, caso contrário, sofrerá um duro golpe. Muitos andaram dizendo que foi muito bom que o Flamengo ter saído da disputa… estão enganados. O Botafogo é um animal ferido. Foi sempre assim, eu conheço”.

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