Leão e Sócrates juntos. É a força da Seleção do Brasil

*Publicado na Gazeta Esportiva de 26/02/1986

Quando começou a se aproximar da data da convocação por parte do técnico Telê Santana surgiram muitas especulações. Afinal, como Telê resolveria o problema entre Sócrates e Leão? Chamaria Leão? Chamaria Sócrates? O goleiro do Palmeiras, embora numa grande fase, poderia ser rejeitado. Sócrates, mau fisicamente, poderia deixar de ser chamado? Não. Telê pensou muito e decidiu chamar o jogador Leão, pelo seu comportamento técnico. E resolveu convocar Sócrates pelo seu comportamento pessoal (nesse momento, ele corre atrás do melhor instante físico e técnico).

A chegada de Leão foi agradável. Telê disse que ele parecia um menino de 18 anos. Leão sorriu e fez questão de deixar claro que nunca havia trabalhado com Telê e que nunca o considerou um inimigo. Comprovadamente, o encontro entre Leão e Telê foi positivo. O técnico mais votado por jornalistas e torcedores e o goleiro considerado o mais eficiente e experiente do futebol do Brasil, juntos, em nome do selecionado, sem restrição alguma. Episódio encerrado. Desapareceram as “inimizades” entre Telê Santana e Émerson Leão. Foi uma grande oportunidade para os repórteres fotográficos e cinegrafistas. O tão esperado encontro entre o treinador e o goleiro ocorreu sem qualquer ato de sangramento.

Mais dois episódios estavam sendo aguardados. Como seria o relacionamento entre Émerson Leão e Casagrande? Surpreendentemente, ambos se encontraram, sorriram, conversaram e viajaram lado a lado na Kombi que levou os jogadores para os exames médicos. Contaram piadas, Casagrande brincou e também foi vítima de brincadeiras. Num passado não muito distante, no Corinthians, Leão e Casagrande tiveram posições distintas e realmente houve um esfriamento no relacionamento entre ambos. Mas, “o tempo é o melhor remédio”, afirma Émerson Leão. “Eu nunca fui inimigo do Casagrande. Aliás, sempre o considerei um jogador muito bom. É um atacante perigoso e gosto da sua companhia. Felizmente, nos encontramos novamente, no selecionado brasileiro, e isso é uma honra para mim.”

Émerson Leão e Casagrande estão sendo vistos constantemente, um ao lado do outro. Trocando “palhaçadas” e até assuntos mais sérios. Como por exemplo, o desenvolvimento do trabalho na “Toca da Raposa”, rumo ao Mundial. Casagrande admite que a experiência e vivência de Leão devem ser aproveitadas: “É bom conversar com o Leão. É um profissional sério e que tem muita coisa para passar aos jovens. Aqui, o nosso relacionamento tem sido muito bom.”

Mas todos esperavam ver o encontro entre Émerson Leão e o jogador Sócrates. Duas feras, duas personalidades fortes e dois jogadores importantes. Inimigo? Leão explica: “Encontrei o Sócrates no hospital. Estávamos todos lá para os exames médicos, no Rio de Janeiro. Ele passou por mim e foi embora… depois olhou para trás e veio até mim. Disse que não tinha me visto e nos cumprimentamos. Foi um encontro cordial, sem hostilidades alguma. Quero dizer, mais uma vê, que ao longo da minha passagem como goleiro do Corinthians sempre nos demos bem, respeitosamente. Não temos, em muitos assuntos, as mesmas opiniões, mas nem por isso somos inimigos. Disse várias vezes que na conquista do título do Corinthians, Sócrates foi extremamente importante e na seleção ele é de enorme utilidade, não somente como jogador, mas como alguém que possui uma grande liderança. Não saímos juntos em São Paulo (sorrindo) e estou tendo um bom relacionamento com ele aqui. Ele pede alguma coisa e atendo, a recíproca é verdadeira. O objetivo do Sócrates, o meu e de todos os jogadores é o futebol do Brasil no Mundial. Coisas menores não interessam e são facilmente superadas.”

Cabelos crescidos, barba por fazer, Sócrates retribui as declarações pacíficas de Émerson Leão:

“É um grande goleiro, sempre disso isso. Foi importante naquela vitoriosa campanha do Corinthians e sempre nos tratamos com respeito. E o mesmo está acontecendo aqui no selecionado. O Leão e eu, como os outros jogadores, queremos trabalhar, lutar visando a conquista do Mundial. Vai ser difícil fazer um trabalho melhor do que aquele realizado em 82, mas estamos lutando para isso. O Leão não aprova todas as minhas teses e eu não aplaudo todas as opiniões dele, mas isso não significa que somos inimigos. Estou feliz em tê-lo no grupo, sei que a sua presença é positiva e que deixa a seleção mais forte. A união, nesse instante, é importante para o sucesso do selecionado. Garanto: até agora, não há nenhum sintoma de rachadura ou desunião. O cheiro no ar é bom, agradável e isso gera entusiasmo.”

Se o relacionamento entre Émerson Leão e Sócrates era uma drama, algo temerário, isso não preocupa mais. Todas as lideranças: Zico, Falcão, Oscar, Sócrates e Leão estão coesos diante do mesmo objetivo. Os outros, jovens e experientes, ratificam a mesma vontade.

Comentários

comments