As catracas vem aí. Um duro golpe na evasão de rendas

* Publicado na Gazeta Esportiva de 26/01/1985

O novo Pacaembu vai se modernizar ainda mais com a instalação do atualizadíssimo sistema de catracas eletrônicas e que estará funcionando à partir do dia 27 de abril. Para o controle total e perfeito da entrada de público no estádio, no combate direto à evasão de rendas. É o primeiro estádio do país a ter catracas eletrônicas, que serão instaladas e mantidas por uma empresa de bebidas. Será assinado um contrato entre a Secretaria Municipal de Esportes e a organização comercial. Serão investidos muitos milhões de cruzeiros.

É a realização de mais um grande melhoramento no estádio para ajudar a própria Prefeitura do Estado de São Paulo, as federações esportivas, os clubes e os torcedores. Por iniciativa do prefeito Mário Covas e do Secretário Municipal de Esportes, Andrade Figueira.

Além das catracas eletrônicas, todo o Pacaembu, estádio e futebol e demais dependências esportivas, terá o sistema de som recuperado e melhorado. Pelas obras executadas e em execução, o esporte de São Paulo já pode contra com um Pacaembu poli-esportivo, restituindo ao estádio a função principal: ser uma praça de esportes. Esta verdade vale para o estádio de futebol, o ginásio, a piscina, as quadras de tênis, a quadra de futebol de salão, o salão de ginástica e os alojamentos.

Sistema de controle

O sistema tem por finalidade exercer o controle sobre o acesso ao estádio de forma global, sendo atuante em todas as fases do processo que vai desde a emissão de bilhete, até o recolhimento de todos eles, fornecendo assim os dados necessários para um efetivo controle da receita.

O meio para permitir um elevado grau de segurança aliado à uma flexibilidade sem precedentes é um cartão plástico dotada de uma tarja magnética, hoje largamente utilizado na automação bancária, cartão este que será portador das informações referentes ao evento, assim como o setor no estádio a ser ocupado pelo torcedor. Este cartão será, portanto, a chave da cada torcedor para ingressar no estádio.

Para tornar isso possível, é imprescindível que em cada portão tenha um ou mais equipamentos que façam leitura do referido cartão, acoplados aos respectivos bloqueios do tipo “catraca” onde cada torcedor irá inserir seu cartão codificado para ingressar ao estádio.

Nesse equipamento, o cartão será lido e se o código estiver de acordo, o bloqueio é liberado permitindo que o torcedor passe enquanto que o cartão magnético, dependendo do caso será desgravado e recolhido a um compartimento adequado existente junto a um bloqueio.

Note-se que, neste caso, os cartões recolhidos a este compartimento só terão validade para um próximo evento quando gravados com um novo código.

Cada torcedor que passa pelo bloqueio é registrado e o sistema por sua vez envia uma mensagem a um concentrador de dados onde são classificados e contados todos os cartões lidos, de forma que terá a cada instante o total por categoria, assim, como o total geral de pessoas que estão dentro do estádio.

No final do evento terá início o processo de reciclagem dos cartões, quando serão recolhidos e esvaziados todos os compartimentos de cartões de bloqueios, procedendo-se, em uma data futura, anterior ao próximo jogo, a gravação dos cartões em um equipamento denominado “gravador de cartões” que registrará a sua tarja magnética, dados referente à próxima partida de futebol.

Esse gravador de cartões, uma vez programado através de um teclado terá que ser alimentado de forma manual, procedendo a gravação e conferência: de cada cartão a uma taxa de 3,5 segundos. Em algumas horas estará feito o novo estoque dos bilhetes, pronto para ser vendido para o próximo jogo.

No caso de um torneio, se houver interesse de permitir que os torcedores freqüentem um maior número de jogos com o mesmo cartão, numa seqüência pré-estabelecida, o equipamento leitor poderá ler, conferir e gravar automaticamente os dados do próximo evento e devolver o cartão para o torcedor.

A grande segurança do sistema está em recolher o cartão quando libera a catraca, nos eventos normais, onde o cartão vale somente para uma vez. Está é a retenção que vai permitir que os cartões não voltem a serem revendidos ao público, já sem validade.

O cartão magnético pode ser impresso com desenho ou dizeres que identifiquem o estádio, local ao qual o torcedor terá acesso, propaganda e uma seta que informe ao usuário a maneira correta de inserir o cartão no leitor.

Codificação do cartão

Os caracteres a serem codificados na tarja magnética são numéricos. Três caracteres que identificarão o estádio, por exemplo: 001; quatro caracteres que identificarão a partida; por exemplo: 4318; dois caracteres que identificarão o tipo de ingresso (numerada coberta, arquibancada, etc), exemplo: 42. E não há possibilidade de o sistema ser interrompido por falta de energia elétrica.

Baterias garantem o funcionamento ininterrupto de todo o sistema, mesmo quando falta “luz” na rede local. Para isto, cada bateria é carregada continuamente, exigindo uma manutenção periódica adequada. As baterias e os respectivos carregadores automáticos são instalados nos painéis que ficarão próximos aos bloqueios.

Temos dos malandros

Esse projeto que ira se transforma em realidade nos próximos dias está provocando um tremendo mal-estar entre aqueles que vêm enriquecendo com a conhecida evasão de rendas. São os cambistas, porteiros, bilheteiros e até arrecadadores. Claro que não são todos, mas que a roubalheira é sentida há anos, não há a menos dúvida.

As últimas administrações tentaram impedir a ação dos cambistas e foram incapazes. O próprio presidente da FPF diz que “o problema não é a ação do cambista. Ele existe no mundo todo. Deveria comprar o ingresso e vendê-lo por um preço razoável para aqueles que não gostam de enfrentar filas. Tudo aceitável. O problema é que, aliado aos bilheteiros – alguns – conseguem os melhores lugares e com alguns porteiros promovem rodízio de ingressos. Isto é: um ingresso vendido mais de uma vez”. Todos esperam que, com as catracas eletrônicas, surja também que um grande golpe na já instituída evasão de rendas.

Todos os desonestos estão assustados

É um velho sonho da diretoria do São Paulo implantar no Morumbi as catracas eletrônicas, mas o custo sempre assustou os dirigentes. Agora, com a decisão de colocar o sistema no Pacaembu e com o surgimento de empresas interessadas em arcar com as despesas, usufruindo de um espaço publicitário, Carlos Miguel Aidar voltou a se entusiasmar. O São Paulo ganharia mais dinheiro a enorme evasão de renda que ocorre em todos os jogos realizados naquele estádio.

Porteiros e bilheteiros desonestos estão muito preocupados. Há anos eles promovem o rodízio de ingressos fazendo com que os estádio “estiquem estranhamente”.

Dentro de poucos dias será quase impossível a continuação de tramas e acordos cinzentos entre alguns personagens desonestos, pelo menos no Pacaembu. E, diante deste prejuízo eminente, os “heróis” deverão aumentar os lucros nos outros estádios, fazendo crescer os problemas no Morumbi, Palestra Itália e Canindé. O Interior também enfrenta o mesmo tipo de problema, mas somente dentro de muitos anos terá condição de implantar catracas eletrônicas! O presidente José Maria Marin entende que em outras cidades o imediatismo é impossível: “A estrutura é muito antiga. Temos que torcer pelo sucesso do sistema no Pacaembu e partir de abrir e, depois, vamos tentar implantá-lo aos poucos em todo o Estado.”

Na opinião de Nilton Nogueira, chefe de arrecadação da Federação Paulista de Futebol, “a instalação de catracas eletrônicas significa o surgimento de maior segurança e praticamente a eliminação da evasão de renda. Pessoalmente, fui favorável e estou torcendo pelo sucesso desse sistema que será adotado pelo Pacaembu. Tomara que em outros grandes estádios, como Morumbi, Palestra Itália e Canindé, por exemplo”.

No próximo domingo jogarão no Morumbi, Corinthians e Vasco da Gama e embora o estádio não vá receber mais de oitenta mil pessoas, a evasão deverá estar presente mais uma vez. A arrecadação da FPF colocará à venda, a partir de amanhã, a carga de 77.989 ingressos, se todos forem vendidos, a renda chegará aos Cr$ 507 milhões.

Os ingressos tiveram os preços aumentados para o atual Campeonato Brasileiro: numerada superior: CR$ 20 mil; numerada térrea: Cr$ 10 mil; arquibancada: Cr$ 5 mil; cadeira cativa: Cr$ 5 mil; senhoras e militares: Cr$ 1 mil; geral Cr$ 1 mil. Se no domingo todos os ingressos forem vendidos, haverá uma outra carga de ingressos, conforme explica o chefe da arrecadação da FPF: “São ingressos de emergência. Acabou aquela fase em que se colocava um volume exagerado de ingressos nas bilheterias.”

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