A Seleção e o Nudismo

* Publicado na Gazeta Esportiva de 05/06/1982

LISBOA (De Wanderley Nogueira, enviado especial de A GAZETA ESPORTIVA) – A notícia chegou ao Brasil com certo estardalhaço: mulheres nuas diante de hotel dos brasileiros! Eram apenas algumas bailarinas do cassino do Estoril que resolveram recorrer ao “topless” e nada mais. Algo que começa ficar comum em Portugal.

Portugal dispõe já (não oficialmente) de sua primeira praia para nudista ou naturalistas, iniciativa que desperta a atenção de grupos econômicos estrangeiros, enquanto se estabelece a confusão nos agentes turísticos estrangeiros, que não compreendem por que é que aquilo que existe não está oficializado.

Dos 20 milhões de nudistas na Europa, Portugal contribuiu com 15 mil. Destes, apenas 400 estão inscritos na única Federação do Naturalismo existente no país. Na praia de Aldeia do Meco, a cerca de 42 quilômetros de Lisboa, o naturismo é um fato, mesmo quando as autoridades policiais teimam em retirar uma placa indicativa do zona, que é recolocada poucos minutos depois.

NudismoHoje, centenas de pessoas de ambos os sexos e de todas as idades gozam nuas o prazer do sol e do mar nas proximidades da Aldeia do Meço. Ontem, a população da aldeia protesta contra este “escândalo dos anos modernos. Hoje, se ainda pensa assim, não se manifesta: os nudistas fizeram prosperar o comércio, os restaurantes e cafés surgem cada vez mais, a localidade saiu do anonimato, os terrenos estão super valorizados e, mesmo contrafeitos, os habitantes do Meco dizem em roda de amigos: “Viva o nudismo!”

Hoje ainda, os curiosos continuam a aproveitar os nudistas. Penetram na sua zona livremente, mas por pouco tempo. Entre aqueles que se deleitam ao sol completamente nus, os “bicos” sentem-se mal e reagem de forma diferente: uns mudam de local, outros despem-se para se integrarem e, quando menos esperam, concluem que já são nudistas. A convivência fará o resto…

A praia do Meco é cenário de naturalismo há pelo menos dez anos. Poucos a conheciam e alguns aventuram-se a falar de nudismo encabulados, temerosos de conseqüências.

A polícia também veio a descobrir, e foi ver como era. Discutiu o problema com alguns freqüentadores da praia. De vez em quando ainda vai lá, mas já não interfere. A maioria dos banhistas, que até são naturalistas ou nudistas, dizem:

“A legalização virá, porque a outra solução já não é possível.”

Nas proximidades do Meco, terrenos que outrora pouco ou nada valiam são agora transacionados por quantias elevadíssimas. Pequenos pedaços de terras que antigamente eram cultivados, passaram a ser parque de estacionamento de automóveis. Os proprietários optaram pelo negócio sem risco. Os terrenos pretendidos por dezenas de pessoas não estão a venda. Os atuais donos esperam a legalização da zona nudista e aí, então sim, poderão optar pela venda, segundo se prevê, a preços elevadíssimos.

Por outro lado, a aldeia sobrevivia sem futuros. Não havia horizontes e os habitantes, tradicionalmente conservadores em relação ao naturismo, viam o seu aparecimento com uma hecatombe de pouca vergonha. Protestaram, chamaram a polícia, lamentaram-se da desgraça imensa que caia sobre o lugarejo. Mas o tráfego nas vias abertas pela marca dos pneus dos automóveis foi-se intensificando.

A poeira cobriu a vegetação, os banhistas procuravam de tudo. Os mais espertos apressaram-se a reforçar os estoques das mercearias, dos restaurantes e dos cafés. As refeições começaram a ser servidas com regularidade, com maior eficiência.

As instalações estreitas, alargaram-se e, em outros casos, nasceram novas unidades. O nudismo é a salvação do Meco. O nome da aldeia até já conta em alguns guias turísticos.

No dia 4 de maio de 1977, nasce a Federação Portuguesa de Naturismo e os estatutos foram registrados no Cartório Notorial de Oeiras. A Associação Portuguesa já é parte integrante da Federação Internacional de Naturismo. Os seus carões dão acesso às zonas naturistas de outros países, particularmente da Espanha, onde foram autorizados.

Na Europa, dos 20 milhões de naturistas, alguns são potenciais visitantes de Portugal. Junto aos agentes de viagens, perguntam se podem ser canalizados para uma zona naturista portuguesa.

É a confusão: os agentes contatam a federação. Esta diz que a zona não tem infra-estrutura, que podem fazer nudismo, mas que não é permitido por lei. O turista não entendo o contra-senso. Os grupos financeiros espreitam igualmente uma oportunidade, a indefinição continua a ser um obstáculo, alguns falam com e federação e dão a conhecer o que pretendem. Todos falam no assunto, o governo tem conhecimento das intenções, só que a lei está em compasso de espera. Um dirigente da federação, que estava na praia disse:

“Há grupos financeiros interessados em criar complexos turísticos para naturistas. Um deles, holandês, investiria muitos dólares. Outro, internacional com sede em Paris, faria um investimento igual ao que fosse necessário, após um estudo da zona.”

O nudismo numa faixa de praia de aproximadamente 500 metros, pratica-se durante todo o ano. Dizem-nos os mais antigos freqüentadores da zona que o local é sem dúvida um dos casos ímpares do privilegiado clima português. A zona tem um clima que possibilita a prática do nudismo mesmo durante os meses de inverno.

Para além do que foi apontado, a areia é naturalmente protegida daqueles que não querem ser nudistas. Não é local de acesso a outras praias.

E, como bônus da natureza, ainda dispõe de uma argila indicada para o reumatismo e outras doenças, de duas pequenas fontes que vão desembocar na praia; o banhista, depois de um mergulho no mar, pode lavar-se com água potável.

No Meco pode afirmar-se que nasceu a primeira zona naturalista portuguesa. Mas, um pouco por todo o país, o naturismo ganha adeptos. No Algarve, as autoridades fazem distribuir circulares avisando da proibição de se andar nu na praia. A vigilância é constante, muitos recorrem ao “topless” como que a procurar um equilíbrio entre o proibido e autorizado. Todos se interrogam: “A legalização virá?”

Os portugueses, de uma maneira geral, não estão mais chocados com o nudismo e é por isso que alguns funcionários do Hotel Guincho estranharam quando receberam informações para que as lindas bailarinas inglesas não mostrassem seu corpo inteiro na praia onde fica a concentração brasileira.

Alguém lembrou da atitude tomada pelo doutor Paulo Machado de Carvalho quando chegou à Suécia, chefiando a delegação brasileira. O “Marechal” deu férias imediatas à uma maravilhosa garçonete, “para evitar problemas…”

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