PROFESSOR TEIXEIRA na Cordilheira dos Andes

 

TEIXEIRA: “O BRASIL ESTÁ CERTO”

 Com 45 anos de idade, o professor José de Souza Teixeira, é considerado na Colômbia, um especialista do futebol, suas táticas, sua organização. Vem realizando um trabalho magnífico, na opinião dos dirigentes do Milionários. O esquema prevê a conquista do título do próximo campeonato e para isso contratou jogadores experientes como Waldomiro, Mário e Ancheta.

Teixeira recepcionou a Seleção Brasileira e liberou o local para treinamentos. Falou sobre o futebol colombiano e também sobre a Seleção Brasileira:

“A Colômbia respeita o calendário. A seleção, por exemplo, sabe o que fará durante os próximos doze meses e é quase impossível ocorrer qualquer tipo de alteração. Acho mesmo que a Colômbia faz um trabalho quase perfeito…Digo quase, porque entendo que os colombianos deveriam jogar na Europa. Em 1980 a seleção da Colômbia jogou 11 partidas, mas nenhuma foi realizada no Velho Mundo…”.

“Também os amadores estão sendo cuidados com muito carinho e o futuro do futebol deste país, na minha opinião, está assegurado”.

“São muitos os jovens que precisam de orientação para surgirem como bons jogadores. Há ótimas alternativas e o custo é muito mais reduzido. Os meninos levam muitas vantagens e os clubes também”.

Cuidado com o Herrera

 Vestido com um agasalho azul, boné azul e branco, olhando para a majestosa Cordilheira dos Andes, o professor José de Souza Teixeira diz que o Milionários não deu nenhum jogador para a seleção:

“Cinco estavam relacionados, mas três sofreram contusões graves e outros dois foram vetados por problemas um pouco mais simples”.

“Para as eliminatórias eles seguirão, mas eu terei estes jogadores até o meio do ano, felizmente”.

“Estamos a 2.600 metros de altura. Na minha opinião o problema não é tão grave. Há alguns anos, os jogadores chegavam sem bom condicionamento físico, sem orientação e realmente sentiam. Agora, todos chegam bem treinados e a adaptação é quase que imediata”.

“Aqui na Colômbia o futebol sofre muitas influências. Como por exemplo, tapes semanais da Europa, da Argentina, do Brasil. São bons os jogadores deste país”.

“Citaria como exemplo o ponteiro esquerdo Herrera que dará muito problema ao selecionado brasileiro”.

“A seleção da Colômbia tem futuro. Vai se tornando experiente e nesta partida contra o Brasil, todos verão os resultados do trabalho que vem sendo feito. Até o dia do jogo, os brasileiros já estarão totalmente adaptados à altitude e nada, ou quase nada, sentirão. Tudo é uma questão de hábito…”.

Em La Paz, é pior

 Apesar de não mais se assustar com a altitude, o ex-técnico do Corinthians, que hoje vive em Bogotá, lembra que alguns cuidados devem ser tomados:

“Quem fuma será mais atingido pela altitude. A pessoa não deve comer demais e não deve beber álcool. Estão enganados aqueles que dizem que o clima é seco. Aqui o ar pode ter quase 100% de umidade, mas não aparenta. A pessoa deve tomar água. Tomando um certo cuidado, os problemas serão minimizados”.

Mas o professor Teixeira, admite que em La Paz a situação é diferente:

“Lá realmente é muito alto e os jogadores sempre sentirão um pouco, não é? Há alguns anos estive em La Paz, com a Seleção Brasileira e o maior problema enfrentado foi provocado pela intoxicação sofrida por alguns jogadores que almoçaram no Hotel Paineiras no Rio de Janeiro. La Paz é muito alta, mas o selecionado brasileiro está trabalhando corretamente, começando treinamentos aqui em Bogotá, depois seguindo para Caracas, Quito e La Paz.

“Dessa maneira os jogadores vão ultrapassando, quase sem sentirem, os problemas naturais promovidos pela altitude. Os bolivianos irão mostrar uma maior rapidez, afinal, estão jogando em casa e no seu clima e altitude”.

Começar certo

 É intenso o ritmo de treinamento empregado pelo professor Teixeira, que aponta para o alto da Cordilheira dos Andes:

“Estamos a 2.600 metros de altura, mas durante alguns dias da semana vamos treinar lá em cima. Mais de três mil metros e os jogadores apresentam um ótimo condicionamento físico. O Waldomiro por exemplo, com 32 anos de idade, parece voar. Quando joga então no nível do mar, fica mais leve, aumenta a sua velocidade e hoje pode ser considerado um ídolo do futebol colombiano. Essas montanhas podem ajudar muito um atleta, é apenas uma questão de pesquisa, adaptação, seriedade e observação de reações”.

“Acho que a Seleção Brasileira está trabalhando corretamente. Veio para o lugar certo para o início da adaptação. Fará jogos importantes e quando chegar em La Paz terá menos dificuldades”.

“O ar é bom, a alimentação aqui é boa e vocês verão um selecionado colombiano correndo muito, hábil, com força”.

“A seleção do Brasil não estará nas suas melhores condições físicas, apesar do esquema empregado ser o certo. Há necessidade de um tempo maior para uma total liberação. Entretanto, o Brasil estará bem próximo do ideal e isso permite um bom rendimento do conjunto dentro do campo”.

Uma seleção jovem

 

“O Brasil é um jovem time e que tende a subir muito mais de produção. São novos ídolos e há necessidade de uma certa paciência”.

“Gostei do futebol brasileiro no Mundialito e somente não ganhamos porque os uruguaios ficaram descansando alguns dias, para a batalha final”.

“Dentro daquilo que a gente vem observando, todo o plano da CBF vem sendo cumprido a risca e como brasileiro, confio na equipe”.

“Já participei de oito seleções profissionais e esta pode ser considerada uma boa seleção. Telê Santana está usando os melhores jogadores que o Brasil possui, com uma ou outra opinião contrária. Isso é natural e um treinador não pode pretender agradar a todo um povo, mas que os jogadores convocados por Telê podem dar alegrias ao Brasil… disso eu não tenho dúvidas…”.

“Este time chegará jovem até 1986 e merece respeito. Aliás, o futebol brasileiro merece respeito. Participamos de todas as Copas, três vezes campeões mundiais, dezenas de torneios conquistados e jogadores com capacidade já comprovada”.

“O futebol do Brasil ainda é o superior, na minha opinião”.

“Enfrenta obstáculos extras, como este agora: a altitude, mas até com a habilidade poderá passar sem sentir dificuldades e insisto nisso: o Brasil está certo”.

No ponto ideal

 

“Os brasileiros gostam de buscar a perfeição dentro do futebol e isso é muito difícil, em qualquer lugar do mundo”.

“Aqui na Colômbia, por exemplo, que está abaixo do Brasil dentro do futebol, houve um congresso e os problemas citados, mostrados, descobertos, são aqueles que nós estamos cansados de saber e enfrentar: Calendário, Arbitragem, Despesas, Treinamentos, Investimentos e muito mais…”.

“Existem 20 árbitros na Colômbia e são poucos… só em São Paulo, existem 200 e o número é considerado pequeno. A Colômbia apesar dos problemas, que considero normais, tem tudo para se classificar para a Copa do Mundo, agora, o presidente Senior pretende acionar o contato internacional como já citei, com a Europa, e então nada mais faltará”.

“Enquanto os jovens jogadores colombianos vão sendo informados, o futebol daqui vai utilizando, inteligentemente, a experiência de jogadores consagrados como Ancheta, Waldomiro, jogadores argentinos, treinadores de outros países, enfim, estão ouvindo, escutando, assistindo e trabalhando há outra alternativa a não ser colher um belo fruto num futuro não muito distante. Estou feliz porque o Brasil começa a trabalhar neste momento, visando a Copa do Mundo, no ponto ideal da Cordilheira dos Andes”.

Ancheta: “Respeitem os velhos!

 É comum no Brasil um jogador ser considerado velho, ultrapassado, abatido, após ter completado 30 anos. Talvez pela facilidade com que surgem jogadores, os velhos são dispensados, ou marginalizados. Há exceções e muitos dos velhos estão provando a cada dia sua utilidade dentro do futebol. Mas, muitos não resistiram e resolveram buscar novos rumos, acertando bons contratos em centros não tão avançados. Ocorre a queda de prestígio, mas aparece a esperada independência financeira.

Aqui em Bogotá, na Colômbia, há dois jogadores conhecidos dos brasileiros que saíram do Brasil como ultrapassados e estão muito bem. O atacante Waldomiro, está no futebol colombiano há 11 meses e é considerado um ídolo nacional. Tem amigos, marca gols, corre muito, experiente e ótimo profissional. O ex-ponteiro da seleção brasileira tem 32 anos de idade, e ainda sonha com o futebol brasileiro, querendo parar de jogar, atuando pelo Internacional.

Ancheta, zagueiro uruguaio que ficou muitos anos no Grêmio, é outro com 32 anos e que foi mostrado como um profissional em fim de carreira, mas ele garante que pode jogar mais quatro ou cinco anos e os colombianos acreditam nisso. Aqui, como em outros países, a experiência é respeitada e enaltecida.

“Estou ganhando um pouco mais de dinheiro – disse Ancheta – mas estou dedicando-me muito. Fiz um contrato por um ano e depois poderei continuar por aqui. É um bom país e creio que ficaria mais uma temporada. Estou em Bogotá há poucos dias mas pude sentir o carinho que as pessoas tem pra com os estrangeiros. Trouxe a minha família e nem poderia ficar longe dela”.

“Com 32 anos de idade um profissional é considerado por muitos como velho. Isso é uma brincadeira de mau gosto… Não posso queixar-me, pois fiz bons contratos, ganhei um bom dinheiro, tenho uma vida estável, mas é triste verificar que algumas pessoas analisam o futebol de um jogador pela sua idade e não por aquilo que ele mostra em campo. É isso que fere, machuca…”.

“Nunca dei motivos para desconfiarem de mim como jogador e como homem. Comecei no Nacional de Montevidéu e fui para o Grêmio. Dois clubes e muitos anos. Quero deixar claro que vim para Bogotá porque a proposta foi boa e porque quero jogar bem por mais algum tempo. Só não aceito certos comentários de que Ancheta não dava mais nada e precisou sair de centros mais avançados futebolisticamente”.

Agora, um pouco mais descontraído, Ancheta diz que o quarto ou quinto dia de adaptação é o mais ruim:

“Quando alguns piques são dados a gente sente vontade de deitar no gramado, rolar, de tanta dor de cabeça. Falta o ar… Mas aos poucos isso vai desaparecendo”.

“Senti-me fraco também. O Brasil jogará contra a Colômbia e deverá inclusive vencer a partida, mas posso garantir que não estará bem fisicamente. Ninguém irá desmaiar em campo, mas também ninguém vai correr normalmente…”.

Cercado por alguns jovens jogadores do Milionários, com uma voz forte, personalidade marcante, Ancheta diz que “no futebol existem jovens e maduros. Ninguém engana por muito tempo… O torcedor quer ver o jogador correndo, tendo força, com pernas eficientes. Portanto, não são comentários que encerram a carreira de um jogador com mais de 30 anos, e sim seu próprio condicionamento físico”.

“Quando o profissional é racional, ele mesmo sente o instante de parar e pode ser aos vinte anos ou mesmo aos quarenta. Fiquei sabendo que o Manga com quase 45 anos, foi campeão mais uma vez. Ora, um velho, mas um velho campeão”.

“Não entendam isso como revolta, mas sim como um desabafo. Seria bom que todos entendessem que um atleta que se cuida pode jogar muitos além da idade-padrão final, ou seja, pode ficar em campo muitos anos, depois dos 30 de idade”.

Waldomiro, demonstra o mesmo entusiasmo de um garoto:

“Quero o título. Estou aqui há onze meses e o trabalho do professor Teixeira é muito bom. Não acertei com o Internacional de Porto Alegre e então apareceu no sul o presidente do Milionários. Fez a proposta e eu aceitei. Estou com 32 anos de idade e saí do Brasil porque não vi nada depreciativo nisso”.

“O futebol brasileiro mudou muito e precisa de todos. Dos jovens e dos experientes. O Palmeiras quase caiu para a Segunda Divisão e isso prova que os grandes clubes não são tão fortes. Marquei 21 gols na temporada passada e acho mesmo que passo pela minha melhor fase. Nem quando estava na Seleção Brasileira, jogava com tanta facilidade. Tenho fôlego e acompanho os mais garotos em todos os treinamentos”.

“Digo isso para deixar claro que não estou podre como alguns disseram no Brasil. Aqui estou jogando mais na meia direita, mas é claro que gosto de jogar na ponta. Pretendo ficar mais um ano na Colômbia e sair levando o título. Mais um, na minha carreira…”.

“Acho, como brasileiro que o Telê Santana sabe o que está fazendo. Tim, então, é ótimo e o nosso prestígio voltou depois do Mundialito. O futebol brasileiro estava abatido, arranhado, e aqui na Colômbia o povo não acreditava mais no Brasil, mas depois tudo mudou”.

“Confesso também que hoje um ponteiro, na opinião de muitos treinadores, deve recuar um pouco, buscar o jogo, enfim, atuar um cacoete de meio campista e respeito isso. Mas o meu estilo é outro: parto com a bola, vou para a linha de fundo, quero ter companheiros ao lado e marcar gols”.

“São bons os jogadores da Colômbia e pode até se classificar. O melhor jogador do time na minha opinião é o ponteiro esquerdo Herrera, que joga em Medellín”.

“O atual futebol colombiano é criativo, de toque, rápido, e tem condições de vencer nas eliminatórias Uruguai e Peru”.

“A Seleção Brasileira deve vencer o jogo, apesar da altitude que é terrível, principalmente no quarto ou quinto dia. Depois a adaptação vai acontecendo e o time pode render bem próximo do ideal”.

“Mas quando o Brasil jogar no nível do mar, nem vai sentir as pernas e todo o time vai correr muito. Além disso, o Tim, com quem trabalhei 11 anos, é profundo conhecedor da preparação física. Ele sabe o que faz…”.

“Na Bolívia, em La Paz, a Seleção Brasileira terá o seu pior momento. Muito alto mesmo. Aqui nós treinamos no alto da Cordilheira dos Andes e já estamos totalmente integrados. Quando jogo fora da altitude as pessoas se surpreendem com o pique do velho Waldomiro”.

Sorrindo, Waldomiro dá um aviso geral: “Respeitem os velhos”. Não há nenhum sinal de mágoa, mas apenas um alerta:

“O mundo não está em fase de desprezar ninguém. O mundo precisa de jovens e velhos. Quando um jogador passa dos 30 anos é visto como um problema. O clube pensa em vendê-lo, marginalizá-lo, trocá-lo por dois mais jovens, em contratar um novo e jovem jogador, tudo bem. É um direito de uma instituição, mas acho que a política é errada. Os mais experientes podem ser úteis e todos os dias isso é provado, nos mais variados campos”.

“Com 32 anos de idade estou correndo mais que um menino e ainda espero voltar para o Internacional de Porto Alegre, para jogar, e aí sim, encerrar a carreira como jogador”.

“Só como jogador, porque disseram que eu tinha pretensões políticas de clube. Sou jogador, quero voltar e jogar no Inter e quero viver intensamente o clube, mas o seu futebol, nunca a parte administrativa”.

“Para terminar, eu quero dizer que minha preocupação é válida, porque alguém será capaz de chamar o Zico ou o Sócrates, dentro de dois ou três anos de velhos e isso seria realmente, mais uma vez, ridículo”.

(ENTREVISTA para a Jovem Pan(Aúdio) e A GAZETA ESPORTIVA(Texto)  27/01/1981

 

***O professor José de Souza Teixeira foi sepultado no Cemitério Quarta Parada, em São Paulo, no dia 14/04/2018

 

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