Bearzot x Telê, a derrota inesquecível

Tenho duas visões diferentes daquela inesquecível derrota, Itália 3 x 2 Brasil, no Estádio Sarriá. A primeira, aos 22 anos, como torcedor, sofri vendo o time do Brasil cheio de craques, com um belíssimo toque de bola, perdendo para um futebol brucutu, cujo destaque da partida, além do Paolo Rossi, foi o violento Gentile. O italiano, que anos depois conheci no mundial de areia em Copacabana, bateu em Zico durante 90 minutos. Já tinha batido no Maradona. Zoff fechou o gol. Foi um desastre. O futebol de resultados venceu o futebol arte. Não consegui engolir a derrota.

Durante anos, acreditei que o Brasil jamais perderia uma revanche para aquela Itália.

Hoje, como analista, sem paixão, revendo as partidas, entrevistando personagens da época, tenho uma visão um pouco diferente. O Brasil foi incompetente. Jogava pelo empate e conseguiu tomar três gols. O time jogava bonito, sem dúvida. Era uma seleção de craques. Leandro, Oscar, Junior, Cerezzo, Falcão, Sócrates e Zico eram jogadores fora de série. Careca fez falta. Ok, mas analisando friamente, o único grande jogo do Brasil foi contra a Argentina.

Existe um certo mito sobre a Seleção de 82.

Na estreia jogou mal. Virou contra a URSS no bico do corvo, beneficiado pela arbitragem. Ok, teve mérito, afinal estreia é sempre o jogo mais nervoso. Depois bateu em bêbado: Escócia e Nova Zelândia. A fragilidade dos adversários gerou uma falsa análise. O time fez uma bela partida contra a Argentina. Foi seu melhor jogo. Depois, vacilou contra a Itália, uma equipe que havia vencido apenas uma partida. Empatou com Peru, Camarões e Polônia. Ora, isso é incompetência. O Brasil não marcou, dançou. Não existe campeão sem defesa. Não estamos falando de retranca, mas defesa. Toda boa equipe precisa ter equilbrio entre defesa, ataque e meio-campo.

Certa vez, no “Discussão entre os Grandes”, programa que eu apresentava na Jovem Pan com Leivinha, Basilio, Minelli e Marinho Peres, recebemos o Chulapa. O artiheiro disse que se jogassem mil vezes contra a Itália, perderiam mil. “Aquela equipe não sabia marcar” disse Chulapa. É a mais pura verdade. Faz sentido.

Aquela derrota mudou a forma de jogar do Brasil. Em 86, Telê voltou mais defensivo. Em 90, Lazarroni comandou o Brasil mais feio que já vi. Em 94, Parreira quebrou o jejum de 24 anos, jogando na retranca, rezando para Romário decidir lá na frente. Era bola no Romário. Deu certo. O baixinho decidiu. O Brasil foi campeão, jogando feio. Apesar da linda conquista, o efeito colateral foi prejudicial. Criou-se no Brasil o mito de que só ganha quem joga feio, na retranca. Não é bem assim. O ideal é o equilibrio. Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. Dá para ganhar jogando bonito sim. O que não dá é ganhar jogando sem marcação. Hoje, isso é impossível.

Telê conseguiu o equilibrio. O “Mestre” sempre foi muito injustiçado. Entrou e saiu criticado. Antes de 82, Jô Soares pedia: “Bota ponta Telê”. O tempo provou que o técnico estava certo. Depois de 86, ficou com fama de pé frio. Bobagem, Telê conquistou 21 títulos na carreira. Apesar dos três títulos brasileiros, com Fluminense, Atlético Mineiro e São Paulo, Telê só foi reconhecido como fora-de-série após a conquista do Bi Mundial de Clubes.

Normal, eu também demorei para entender Bearzot e o futebol eficiente e equilibrado.

Bearzot foi um técnico vitorioso. Semifinalista em 78, ganhou da anfitriã e campeã Argentina, em Buenos Aires. Em 82 levou o título, merecidamente. Deixou o comando da “Azzurra” depois da eliminação pela França, em 86. Não é fácil participar de três Copas do Mundo, dirigindo uma das maiores seleções do planeta. Bearzot foi fora-de-série.

Aos 22 anos, apesar de zagueiro, futebol pra mim era só ataque e dribles.

Hoje, aprendi a olhar o futebol de uma maneira mais completa.

É preciso saber olhar os dois lados da moeda.

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